Cadê o tal meteoro?

Anaximandro Amorim , 24 Fevereiro 2017

Cadê o tal meteoro?

Enquanto eu esperava o fim do mundo pelo espaço (com a queda o tal meteoro), ele vinha se acabando debaixo do meu nariz. A greve da Polícia Militar do Espírito Santo, iniciada em 04/02 do corrente, fez com que eu e 3,8 milhões de capixabas tivéssemos o nosso gostinho de “Guerra da Síria”, ainda que bem pequeno no tamanho. Imagina se fosse completo? De repente, o medo de sair às ruas para ir daqui até ali, comprar pão. Quando havia. E tudo o que aparentava ser calmo virou de pernas para o ar.

Enquanto o Leviatã cruzava os braços, espocavam mensagens. Execuções, agressões, furtos e tudo aquilo que de pior a raça humana poderia mostrar faziam comprovar as teorias do filósofo inglês Thomas Hobbes. E eu, que nem filósofo sou (apesar do nome), chegava à conclusão de que ainda estamos longe de ser uma sociedade civilizada. Somos, na melhor das hipóteses, uma sociedade controlada, e que quando perde o controle, se afunda na barbárie, no “estado da natureza” hobbesiano. Não passamos de animais com fala.

O problema é quando a fala também se torna um problema. De uma hora para a outra, as redes sociais se tornaram um simulacro da guerra que acontecia nas ruas. Talvez até pior, pois o virtual tem um poder maior de potencializar o real. Incluindo o ódio. E em um mundo de opiniões pessoais, coroava-se o individualismo, em nichos: periferia/centro, esquerda/direita, burgueses/proletários. Todos apegados às suas verdades, parecendo torcer para a desgraça do outro. Enquanto isso, lá fora, quase duzentos assassinatos. O mundo real não tem “mimimi”.

Acho que foi Nietzsche que disse que “a guerra apuraria a raça humana”. Infelizmente, os humanos estão mais preocupados em se digladiar de que em transcender. Ouvi coisas do tipo “mas você mora em um bairro nobre”. De fato, estou distante de uma periferia, onde a violência, infelizmente, é institucionalizada. Eu sou humano antes de tudo, e me solidarizo com o irmão que muitas vezes tem até sua vida ceifada, sua família destruída. Estou longe de ser um alienado e não tenho culpa de ser o que eu sou, nem melhor, nem pior do que ninguém. Também não tenho peito de aço, e acho que a espécie poderia se apurar sem guerra. Apesar de Nietzsche.

Do alto dos meus quase quarenta anos, já sobrevivi a alguns “fins do mundo” (1999, 2000, 21/12/2012 e, agora, 16/02/2017). Pela primeira vez, torci para que isso acontecesse. A miséria humana, exposta em profusão dentro e fora da internet, me deixou nauseabundo. Talvez um belo meteoro fosse a borracha de Deus para a construção de um novo Homem. Continuamos do mesmo jeito, no entanto, divididos entre o “nós e eles”, sem perceber que, enquanto não nos unirmos, aqueles que estão acima do bem e do mal se locupletam do nosso medo, da nossa intolerância. Eles têm seus próprios exércitos. Aqueles que eles usam para garantir a “paz armada”, de preferência, exterminando quem for diferente de mim. Realmente, Hobbes nunca esteve tão atual como nesses dias.

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