O "nanotédio"

Anaximandro Amorim , 12 Dezembro 2017

O "nanotédio"

Escritores, obviamente, adoram palavras. Novas, então! Aprendi várias esta semana. Mas, uma me chamou a atenção: “nanotédio”. Tentei usar meus conhecimentos em “grego” (provenientes de um velho dicionário de prefixos e sufixos) para decifrar o mistério: trata-se de um novo mal, dessas ditas “doenças da contemporaneidade”. Se você “fala” grego tão bem quanto eu, já imaginou: “nano” de pequeno; tédio, de tédio, mesmo. Um tédio pequeno, certo? Inofensivo, portanto. Engano seu: o “nanotédio” é mais uma daquelas palavrinhas aparentemente fáceis, mas que nos iludem no primeiro significado: ele é a força que nos move a pegar o celular a toda hora, sem parar.

Atire o primeiro smartphone quem jamais fez isso. Acabei de olhar o meu, quando terminei o parágrafo anterior. Antigamente, quando esses aparelhos serviam apenas para a fala, a gente parava e se concentrava. Hoje, qualquer vacilo, estamos ali, com a desculpa de checar “rapidinho” as redes sociais, as mensagens. O mundo de hoje ficou tão barulhento e tão dinâmico que não sabemos mais lidar com o silêncio. O celular está a um palmo da mão e vamos a ele de quando em quando, deixando de lado o texto da crônica, a louça para lavar, a hora de sair e, pior: a pessoa que está na nossa frente. Pois, provavelmente, ela também está fazendo a mesma coisa.

O cérebro é muito plástico e os apelos virtuais são tentadores. Mas, apesar de ter ido, mais uma vez, ao celular, antes de começar este parágrafo, temo pela nova geração. Já cheguei ao meu trabalho e me deparei com nove jovens estagiários, sentados lado a lado. Ninguém trocava palavra. Apenas letras. Segundo uma matéria que eu li, o “nanotédio” pode fazer a gente ir para o celular até 120 vezes ao dia! Você parou para pensar o que isso significa, leitor? Se você estipular uma média de um minuto para cada “espiadinha”, você perdeu duas horas na frente do aparelho. Quase o tempo de uma viagem ou de um engarrafamento em uma grande cidade. Em tempo: você fica apenas um minuto espiando suas mensagens ou suas redes sociais?

Uma humanidade cada vez mais apta a lidar com máquinas. Uma válvula de escape para a feiura da realidade. Mais que uma nova palavra, um monstro que criamos para nós e com o qual não sabemos lidar. Quando pensávamos que o futuro aconteceria no ano 2000, que os carros voariam e que robôs fariam faxina nos nossos lares, jamais poderíamos imaginar que nos tornaríamos escravos de um aparelhinho. Há quem quisesse poder viver dentro do próprio celular! Esses “pequenos tédios” do cotidiano, tão invisíveis e que têm no virtual a única forma de prazer, escondem a dimensão viciosa por trás disso tudo. Quando não letal. Estamos todos acometidos da mesma doença. Assim, melhor para por aqui, antes que eu vá até o meu celular de novo.

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