Medo

Anaximandro Amorim , 24 Março 2017

Medo

Eram por volta de três horas da tarde num dia quente de verão em Vitória, capital do Espírito Santo. Com fome, resolvi dar aquela “fugidinha” do trabalho, para comprar algo para lanchar. Já de volta, resolvi me abrigar debaixo de uma árvore, em uma movimentada praça da capital capixaba, para me esconder do calor escaldante, quando, de repente, avisto dois rapazes em minha direção, olhando-me fixamente. Jeito simples, chinelo de dedo, bermuda, camiseta. “O que será que eles querem de mim?”, pensei. Foi quando um deles me estendeu a mão e, tentando puxar assunto, perguntou: “Beleza, mano?”.

Dizem os psicólogos e psiquiatras que o medo é um instinto natural em qualquer dos animais, incluindo o animal humano. É um sentimento que tem a ver com a nossa preservação, que testa os nossos limites e nos dá um recado quando resolvemos ir longe demais. Como tudo em matéria de inconsciente, no entanto, é necessário sentirmos medo dentro de um juste milieu, um meio termo: nem tão medrosos, nem tão destemidos. Há quem seja fóbico, há quem seja louco. E o problema é, justamente, achar esse meio. Primeiro, porque cada um tem sua medida. Segundo, porque, no mundo em que vivemos, essa medida vem cada vez menor.

Eu me lembro de uma entrevista do ator Lima Duarte, que dizia que, na roça, onde ele viva, seus pais o ensinavam a ter medo de onça e de cobra. Foi na cidade que ele começou a ter medo de outro bicho, o homem. Urbano que sou, cresci com medo desse bicho. Sempre acreditei no homem, para cima, mas, infelizmente, ele pode ser capaz de coisas, também, para baixo. Isso, aliás, é o que mais se amplifica nos meios de comunicação, o que me faz pensar se, de fato, sempre houve tanto o que temer ou se existe uma espécie de “indústria do medo”.

Há uma entrevista muito boa do escritor moçambicano Mia Couto sobre este assunto, aliás. Ela é muito fácil de ser encontrada na Internet. O medo faz vender jornal. O medo faz vender armas. O medo faz com que a gente fique dócil. O medo cria massa de manobra. Quem nunca deixou de exigir algum direito, por medo de perder o emprego, por meio de seu ex adverso? O medo nos cala, o medo nos tranca em casa. A rua, antes, local da infância, cedeu lugar ao medo. Vivemos reféns desse inimigo imaginário, ora materializado naquele bandidão barra-pesada, armado até os dentes, ora naquele cândido vizinho, que, se diferente de nós, provoca arrepios.

Todo esse estado de coisas nos leva, naturalmente, a nos juntarmos aos nossos “iguais”. É muito mais cômodo e confortável. O problema é quando esse medo vira ódio do diferente. Dentro do meu quinhão, estou seguro para atacar o outro. E, assim, vamos criando nichos, numa sociedade cada vez mais individualista, a despeito da natural pluralidade do humano. Eis a gênese da intolerância, combustível para o espantoso crescimento da extrema-direita, no Brasil e no mundo. Meu medo do diferente se torna ódio. Então, a melhor forma, é exterminá-lo. Assim foi, na época do nazi-fascismo. Estaríamos fadados à repetição da história? Ou temos, em nós, o gérmen da destruição, mesmo?

A cena durou poucos segundos. Ressabiado, ainda dei a mão ao garoto, que me fez outra pergunta qualquer. O colega dele ficou uns passos atrás, me encarando. O sinal para pedestres abriu. Aliviado, respondi qualquer coisa e voltei em um pé de vento até a segurança do meu trabalho, sem olhar para trás. Queriam eles me assaltar? Pedir algum dinheiro? Ou, na mais esdrúxula das hipóteses, apenas conversar? Não sei. Não quis pagar para ver. Eu fiquei com medo. Muito, muito medo.

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