Arte, Crônicas e Poesia
O velho e os cachorros
Publicado em 17/09/2026 às 11:17

Acordei animado, mesmo depois de uma noite repleta de pesadelos, não obedeci ao ensinamento materno de deitar sem jantar. Durante a caminhada ao ponto de ônibus, faltavam poucos minutos para que passasse, tive que apertar o passo. Nisso veio ao meu encontro um senhor na casa dos 60 a 70 anos, passeava distraído com cachorro pequenino da cor caramelo. Acenei para ele um pouco e seguiu seu caminho.
Refleti que aquele senhor tinha achado um jeito bom de viver, ao caminhar cedo e passear com o seu cachorro. Não passou uns 40 metros por mim escuto barulho de cachorros latindo enfurecidos, ao me virar notei que aquele senhor estava tentando acertar com pedaço de pau dois cachorros dentro de uma casa. Os cachorros afastavam e aproximavam do portão contra atacando.
Eu retornei e fui conversar com o velhinho, nisso me retrucou com violência que aqueles cachorros tinham fugido e destruído o jardim dele e que mereciam morrer. Tentei dissuadi-lo a ir embora pois iria machucar-se e também aos cachorros. Retrucou que aquilo não era da minha conta que era para respeita-lo, já que era mais velho. Disse que estava justamente tentando protege-lo de qualquer ferimento, ao passo que disse que não precisava de ajuda de ninguém.
Durante esse dialogo a dona do cachorro saiu e começou a advertir o velho, depois do espanto inicial, começou a xingar o velho. Ele não deu por satisfeito e retribuiu as ofensas. Ficaram assim por uns minutos e de repente veio um carro que parou do lado, uma voz gritou “pai”, vamos embora”. Esse velho vociferou e entrou no carro junto com seu cachorro e partiram. A mulher me ignorou, chamou os cachorros para dentro e também partiu.
Ao observar as horas, perdi o ônibus, chegaria inevitavelmente atrasado no trabalho. Acelerei o passo e fui para o ponto. Durante o percurso fiquei refletindo sobre tudo que havia acontecido, logo cedo, bem quando estava animado!
O meu primeiro pensamento foi de incredulidade, credito isso a minha própria ingenuidade de achar que as pessoas ao ficarem mais velhas tornam-se mais sábias. O tempo muitas vezes só piora e realça a essência. Por trás do semblante bonachão e simpático existe uma pessoa rancorosa e maldosa.
A cada dia descubro que o viver é sempre momentâneo. Por mais que deva ter um planejamento das ações, as escolhas imediatas são primordiais e somos a somatória disso. Para alguém irromper com raiva e ódio para cima do outro certamente carrega em seu coração frustrações indescritíveis e que ao menor sinal externo afloraram como um vulcão.
Aliás, tem sido essa a marca do nosso tempo, a fúria descomunal. Sempre acompanho nos jornais relatos de acidentes absurdos no trânsito. A pessoa ao ser fechada por outrem avança com o intento de matar, uma pessoa que nunca viu, sem qualquer história pretérita. Esse sentimento estava ali no coração, certamente nutrido dia após dia, por diversas situações e de forma abrupta e insignificante a pessoa condena a si pelo resto da vida.
E talvez seja outra característica ingênua na minha visão: considerar que as pessoas devam preocupar-se consigo e com o outros. E o primeiro passo é conhecer a ti mesmo, pelos menos as vicissitudes já está bom. Ao fazer isso evita projetar no outro a frustração que está em ti mesmo.
Existe uma lógica atual de que não podemos parar por nada, a vida em constante agitação, sendo que na maioria das vezes, maior prova de força é saber recuar, não dissimular a doença com medicamentos. Cuidar da saúde exige sempre paciência e disciplina.
E ao chegarmos na velhice, tenhamos pelo menos a serenidade advinda da paciência e observação. Sejamos um milímetro melhor!
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