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Arte, Crônicas e Poesia

O Silêncio dos que suportam

Publicado em 24/06/2026 às 09:27

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A maioria das pessoas passam pela nossa vida, outras vem e vão e poucas ficam e constroem algo edificante. Elas continuam indo e as perguntas ficam. Não que as respostas irão melhorar alguma coisa, mas muitas vezes até mesmo pioram. Sentimento paradoxal, somos sempre um pequeno e arrogante paradoxo.

Estava dentro do ônibus, por usual, lotado, rostos sisudos e irados. Em uma parada ingressou um idoso, de forma abrupta mandou uma mulher sair do lugar, ela negou e disse que era deficiente física, inclusive apontou para sua ausência de perna. Tudo isso gerou um silêncio constrangedor. Fiquei refletindo o porquê de tamanha frustração.

Já meio que sabido e facilmente notado as ilhas mentais que as pessoas estão morando, o outro é raramente notado, uma geração de Narcisos melancólicos. Ao comentar com um colega sobre uma família que precisava de ajuda, haviam perdido tudo em recentes enchentes na cidade, retorquiu: “Por que ajudar alguém desconhecido?”

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Não foi um questionamento de alguém maldoso ou dissimulado, simplesmente a fala de um homem comum, no seu íntimo de fato não ver qualquer sentido na solidariedade, inclusive entende que qualquer ação em prol do outro lhe causa prejuízo, ou perda de tempo. Diante de tal questionamento, optei por ficar em silêncio, em certos momentos e para certas pessoas, não adianta responder, qualquer dialogo torna-se facilmente discussão ou monologo estupido.

Todavia, chama a atenção a indiferença, em uma expressão hiperbólica, nem a morte é suficiente para acabar com o torpor. Entretanto, viver é trabalhoso mesmo, uma corrida que não sabemos o real destino. Esses dias me falaram sobre a necessidade de ter coragem, coragem para viver, coragem para ser, coragem para romper o medo de não ser. Isso é muito difícil, o conforto, o gozo, eles confortam muito, enredam e depois que alcançamos, fazemos tudo para não os perder.

Honestamente, acredito que sair da rede seja o mais difícil, optar pela dor e conhecimento é extremamente difícil…

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Para algumas pessoas acredito que não seja possível escolher, vieram como que destinadas a passarem pelo vale de provações e desafios hercúleos. Meu avô, sempre sisudo, sempre muito lacônico, enfrentou coisas inimagináveis, nunca conheceu a tranquilidade. Conviveu na Bahia com o cangaço e teve que fugir para Minas Gerais, largou para trás tudo que demorou uma vida inteira para adquirir. Nunca entrou em detalhes sobre o que de fato viu, sempre dava um jeito de tergiversar qualquer dúvida sobre o passado. “Crianças não devem saber de algumas coisas da vida”, dizia.

O que mais recordo com nitidez era justamente esse silencio cheio de significados, passava horas ao seu lado, nenhum gesto, as vezes frases soltas e desconexas. Um tio avô, mais falante com crianças, disse uma vez que meu avô chegou a ficar dias escondido no mato e que andava a noite da mesma maneira que andava durante o dia, mesmo na vegetação repleta de espinhos e cobras. Devido a sua coragem conseguiu salvar toda sua família e nunca se vangloriou ou lamentou qualquer coisa na vida.

Em tempos modernos, raramente encontrarmos pessoas assim; ensinam com o silêncio e suportam o mundo sem lamuriações.

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