Lista sugere boicote a eleitores do PT em Domingos Martins e caso é denunciado na Polícia Civil

Publicado em 30/10/2026 às 09:17

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Texto: Bruno Caetano / Foto: Divulgação

Comerciantes e prestadores de serviços de Domingos Martins denunciam estar sendo alvo de boicote por causa de suas posições políticas. Uma lista com nomes de pessoas que teriam votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) circula em grupos de WhatsApp e redes sociais, acompanhada de incentivos para que consumidores deixem de contratar seus serviços ou comprar em seus estabelecimentos.

No último domingo, 71,19% dos eleitores de Domingos Martins, o que corresponde a 16.436 pessoas, votaram no candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL). O presidente Lula, reeleito no segundo turno das eleições, recebeu 28,81%, o que representa o voto de 6.653 pessoas.

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Insatisfeitos com o resultado das eleições, pessoas passaram a criticar quem votou no PT, e criaram uma lista de comerciantes e prestadores de serviços que teriam votado em Lula. Os relatos de pessoas que aparecem nesta lista incluem redução na procura por atendimentos, ameaças e manifestações de caráter homofóbico. Entre os profissionais que afirmam ter sido atingidos está a cabeleireira Layla Mayara. Ela conta que, desde segunda-feira (26), percebeu um aumento de desmarcações de agendamentos de horários em seu salão.

A profissional acredita que a queda esteja relacionada à circulação da lista, na qual seu nome teria sido incluído por sua escolha política. Em um desabafo publicado nas redes sociais, Layla afirmou que nunca imaginou enfrentar uma situação como essa na cidade onde construiu sua história pessoal e profissional.

Ela confirmou que votou em Lula e defendeu que a escolha eleitoral não pode ser motivo de perseguição ou prejuízo ao sustento de trabalhadores. “Você não precisa concordar com o meu voto para respeitar a minha existência”, escreveu.

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A cabeleireira também ressaltou que seu salão representa o resultado de anos de dedicação e trabalho. Para ela, a divergência política faz parte da democracia, mas não deve ser transformada em exclusão ou tentativa de prejudicar a atividade profissional de alguém. Assista abaixo a manifestação pública da cabeleireira.

Nelson Soares, que trabalha com o senador Fabiano Contarato (PT), também se manifestou publicamente. Em uma postagem nas redes sociais, ele relatou indignação com os episódios e afirmou que, além das ameaças de boicote, haveria comentários homofóbicos direcionados a trabalhadores e comerciantes.

“É inaceitável que, em pleno 2026, pessoas se sintam no direito de atacar, constranger e intimidar outras por pensarem diferente, chegando ao ponto de utilizar comentários homofóbicos e promover ameaças de boicote a trabalhadores e comerciantes”, publicou. Nelson defendeu o respeito às diferenças políticas e à orientação sexual e afirmou que não pretende se calar diante das situações relatadas.

Advogado afirma que nomes foram encaminhados à polícia

O advogado Emerson Araripe Melo também confirmou ter sido incluído na lista. Ele contou que tomou conhecimento da publicação depois que amigos receberam o material em grupos de WhatsApp e o informaram sobre a situação.

Segundo Emerson, o critério utilizado para a inclusão dos nomes seria exclusivamente político: pessoas que votaram em Lula. O advogado afirmou que alguns nomes e grupos de WhatsApp foram repassados às autoridades policiais, que solicitaram sigilo sobre as informações.

Emerson relata que comerciantes e prestadores de serviços já perceberam redução no número de clientes nos últimos dias. Ele também afirma que algumas pessoas receberam ameaças diretamente e enfrentaram consequências emocionais em razão dos episódios.

“Os danos são irreparáveis, muitos comerciantes e prestadores de serviços já perceberam a queda no número de clientes nos últimos dias. Além disso, é uma clara tentativa de intimidação com viés político com fins de calar o cidadão que vota na esquerda”, declarou.

De acordo com o advogado, o caso foi encaminhado às autoridades policiais para investigação. Caso sejam constatadas práticas criminosas e identificados os responsáveis, os procedimentos poderão ser encaminhados ao Ministério Público.

Boicote pode gerar responsabilização

A circulação de listas que incentivam a população a deixar de consumir produtos ou contratar serviços de profissionais identificados por suas posições políticas levanta questionamentos sobre os limites da liberdade de expressão e as possíveis consequências jurídicas dessas práticas.

A Constituição Federal assegura a liberdade de manifestação do pensamento e de expressão, mas também protege a honra, a imagem e a privacidade das pessoas. O artigo 5º, inciso VIII, estabelece ainda que ninguém será privado de direitos por motivo de convicção filosófica ou política, ressalvadas as condições previstas no próprio dispositivo.

Na esfera civil, os artigos 186, 187 e 927 do Código Civil estabelecem hipóteses de ato ilícito e a possibilidade de obrigação de indenizar quando uma conduta causa dano a outra pessoa. A aplicação depende da análise das circunstâncias e da comprovação dos requisitos legais.

Já na esfera criminal, o artigo 147-A do Código Penal prevê o crime de perseguição, conhecido como stalking. Para sua configuração, é necessário que exista perseguição reiterada, por qualquer meio, com ameaça à integridade física ou psicológica, restrição da capacidade de locomoção ou invasão ou perturbação da liberdade ou privacidade da vítima.

A simples divulgação de uma lista ou o incentivo ao boicote não configuram automaticamente esse crime. O eventual enquadramento depende da investigação e da análise das condutas praticadas, especialmente quando há relatos de ameaças, intimidação ou perseguição reiterada. Até o momento, as informações sobre a circulação das listas e os possíveis responsáveis estão sob apuração das autoridades policiais.

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