Escritora de Domingos Martins lança livro inspirado na trajetória de Carolina Maria de Jesus
Publicado em 05/11/2026 às 13:24
Texto: Bruno Caetano/ Foto: Divulgação
A trajetória de Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira que transformou em literatura a experiência da fome, da pobreza e da luta pela sobrevivência, inspirou a poeta e contista Neuzamaria Kerner a escrever seu novo livro. Intitulada “Holocaustos quase invisíveis – Além do Quarto de Despejo”, a obra reúne poemas que propõem um olhar sobre sofrimentos cotidianos que, muitas vezes, passam despercebidos pela sociedade.

Moradora de Domingos Martins, na região Serrana do Espírito Santo, Neuzamaria apresentará o trabalho neste sábado (7), às 10h, na Biblioteca Pública Municipal Argentina Lopes Tristão.
A ideia surgiu após a leitura de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado por Carolina Maria de Jesus. Impressionada com a história da escritora, que viveu em condições de extrema pobreza e trabalhava como catadora de papel em São Paulo, Neuzamaria começou a escrever poemas inspirados em sua trajetória.
“Eu sou movida praticamente por sonhos e emoções. Quando leio um livro, vejo alguma arte, ou ouço e vejo o sofrimento de alguém, aquilo fica meio que martelando na minha cabeça. No caso do Quarto de Despejo, foi muito forte e eu fiquei com a Carolina muito presente diante de mim”, conta.

A relação com a obra também passa pela trajetória pessoal e profissional da poeta. Graduada em Letras, Neuzamaria trabalhou como professora e participou de projetos de educação, incluindo iniciativas de alfabetização de jovens e adultos. A experiência tornou ainda mais significativa sua identificação com Carolina, cuja escrita ganhou reconhecimento apesar das dificuldades de acesso à educação formal.
“Pra mim é inadmissível que uma pessoa não possa ler e entender o que está num livro e não saiba reproduzir em palavras escritas. A autora do Quarto de Despejo era semianalfabeta, mas a escrita lhe deu vida e lhe tirou da miséria”, afirma.
Poesia como denúncia social
No novo livro, os poemas foram organizados como versículos. A proposta é dar à trajetória de Carolina uma dimensão simbólica e de reconhecimento, transformando sua história em uma homenagem à experiência feminina e aos sofrimentos que atravessam diferentes gerações.
O título também representa uma reflexão sobre as dores que permanecem invisíveis. Para Neuzamaria, existem situações de sofrimento acontecendo diariamente, mas que acabam ignoradas pela sociedade, seja pela falta de sensibilidade ou pela preocupação de cada pessoa com os próprios problemas.
“Todos os dias acontecem pequenos holocaustos ao nosso redor e nós estamos tão ocupados com nossa própria vida (ou dor) que não vemos as dos outros”, reflete.
A escritora explica que o livro não pretende apresentar respostas sociológicas para as desigualdades, mas propor outra maneira de enxergar e abordar a dor humana. A obra também traz críticas a problemas que continuam presentes na sociedade, como o feminicídio, as condições precárias de trabalho e o machismo estrutural, que contribuem para a invisibilidade das mulheres.
“Nas entrelinhas deste livro, há uma denúncia sobre as desigualdades que ainda não foram resolvidas. O feminicídio continua, as condições impróprias no trabalho idem, o macho ainda prevalece sobre a fêmea nesta nossa sociedade ainda excludente”, destaca.
A educação aparece como um dos caminhos para transformar essa realidade. Ao longo da carreira, Neuzamaria acompanhou mulheres que encontraram na alfabetização e no acesso ao conhecimento oportunidades de mudar suas próprias histórias.
Ela recorda especialmente a experiência com turmas de educação de jovens e adultos em comunidades pobres, nas quais mulheres frequentavam as aulas acompanhadas dos filhos pequenos, chegando a amamentar os bebês durante as atividades. “Presenciei o mulherio fazendo uma revolução pessoal. Mulheres que levavam seus bebês e os amamentavam durante as aulas. Coisa mais linda do mundo!”, relembra.
Apesar das desigualdades que aborda na obra, a autora demonstra otimismo em relação aos avanços conquistados pelas mulheres e defende uma sociedade com mais igualdade de oportunidades e direitos.
“Não é uma competição de quem é melhor, se homem ou mulher, porém a consciência mesmo dos direitos e do pertencimento para ajudar nesta nossa batalha por um mundo melhor onde caibam todos com os mesmos pontos de partida”, conclui.
Sobre a autora
Nascida em Salvador (BA), em 1952, Neuzamaria Kerner é poeta e contista, graduada em Letras. Ao longo da carreira, ministrou aulas e participou de projetos educacionais, como o Proler, Filosofia para Crianças e iniciativas de alfabetização de adultos. É integrante da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Cultura da Bahia. Atualmente, reside em Domingos Martins, onde atua como escritora residente da Biblioteca Pública Municipal Argentina Lopes Tristão.
Entre suas publicações estão “Fragmentos de Cristal” (1992), “Eu bebi a Lua” (1995), “O livro-arbítrio das Evas dentro e fora do jardim” (2014), “Marcas escrevividas” (2021) e “Memórias do Silêncio” (2024), além de participações em coletâneas literárias.
Serviço
- Evento: apresentação do livro “Holocaustos quase invisíveis – Além do Quarto de Despejo”
- Data: sábado, 7 de novembro de 2026
- Horário: 10h
- Local: Biblioteca Pública Municipal Argentina Lopes Tristão, Domingos Martins (ES).