Coluna Pomerana

A Pomerânia poderia ter se tornado uma grande nação

Publicado em 04/01/2022 às 09:19

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Colunas-Montanhas capixabas-Pomerano

Texto: Jorge Kuster

Em 1637, Pouco tempo depois da morte de Bogislaw XIV, o último duque pomerano, a Pomerânia passou a ser uma das 36 províncias, uma espécie de estado da Antiga Prússia, depois da Confederação Germânica e atualmente, uma pequena parte do estado alemão de Meklenburg-Vorpommern. O ducado poderia ter se tornado um país no decorrer da sua conturbada história!

São detalhes históricos que impediram ou fizeram com que muitos lugares se tornassem grandes nações. No Brasil temos um exemplo desta situação: o Quilombo dos Palmares, por pouco não se tornou uma nação dentro do Brasil. Tinha uma política, economia, um grande líder, uma organização bélica própria e diferente do Brasil escravocrata colonial. Resumindo: foram necessários três exércitos para derrotar Palmares. Por pouco não foi uma país, ali no nordeste. Venceu dois exércitos: o de Recife e o de Salvador e perdeu a última batalha contra o de São Paulo.

E a Pomerânia, por dois detalhes fundamentais, não se tornou um grande país, às margens do Mar Báltico, no norte da Europa. Esses dois detalhes são: a falta de uma liderança e a falta de um bom exército.

Por muitos anos a Pomerânia foi o maior celeiro agrícola da Europa. A batata inglesa, na verdade é peruana, mas foi primeiro cultivada na Pomerânia. Na verdade, a Inglaterra roubou a batata pomerana e a batizou de “inglesa”. As riquezas minerais do seu subsolo chamavam a atenção das potências da época. Sua localização marítima, com belas e grandes praias e limítrofe entre o ocidente com o oriente lhe deram grande importância estratégica e era cobiçadas pelas grandes nações.

Na época, o povo pomerano já tinha as suas manifestações históricas e culturais: tinha um território, mesmo que pequeno, como grande parte dos países europeus atuais) cerda de 75% da área do estado de Espírito Santo.) Esse território poderia ter sido ampliado com as eventuais conquistas pelo seu exército. E é em cima desse solo que as plantações, as criações, a cultura e outras práticas tiveram a sua territorialidade.

Uma das manifestações mais importantes da Pomerânia foi sua Língua. E a língua pomerana seria um fator importante para o estabelecimento de uma eventual nação. Não era, como alguns o querem, um dialeto do alemão. Era uma língua. Com as pesquisas do Ismael Tressmann, no Brasil essa língua mostrou a sua força e resistência, como seu povo. A língua é o coração da cultura. Ela arrasta consigo a história e todas as outras dezenas de manifestações culturais. A língua explica, detalha, dá sentido, desafia, arrasta consigo e eterniza outros elementos da identidade histórica e cultural de um povo. Também fortalece a territorialidade, dá sentido à natureza, ao solo, aos mares e ao espaço que aquela nação ocupava e cultivava.

A culinária pomerana tanto na Europa como aqui no Brasil teve e tem caraterísticas alimentares próprias e marcantes. A influência do clima europeu frio era sentida na produção agrícola, como também o faz o clima quente do Brasil. Com essas profundas influências os pomeranos readaptaram a sua produção agrícola e a sua lida com a terra. Na Pomerânia cultivavam batata, centeio, beterraba, trigo e aveia. Era a base da sua produção agrícola. Na Europa o pão era feito de trigo e centeio. Aqui no Brasil passou a ser feito com fubá, inhame, mandioca, batata doce e cará e, que no Espírito Santo passou a ser conhecido como brote. Apenas em ocasiões especiais se fazia o brote com o trigo importado da região sul do Brasil. Na Pomerânia, o almoço tinha como base a batata. No Brasil o tradicional almoço e a janta eram constituidos de arroz, farinha de mandioca, feijão e carnes de galinha, porco ou gado. No Espírito Santo e na Rondônia podemos citar o brote, a linguiça e o almoço como típicos pomeranos, também nos finais de semana, se tem na mesa a tradicional sopa de macarrão ou arroz ou sopa de pêssegos, batata doce, mandioca, carne de galinha e sobremesa de arroz doce. Existe até uma música com um refrão falando do “alemão batata” (RS), “Alemão taioba” (RO) e “alemão broteiro” (ES) que são os principais alimentos pomeranos nesses estados.

A música é outra manifestação cultural pomerana rica e muito especial. Com destaque para a solitária concertina. Aqui no Brasil, o som desse instrumento, ouvido nos bailes de final de mutirão, nos casamentos pomeranos e nos bailes em geral, atravessou o século. Recentemente tivemos até uma banda de rock em Laranja da Terra. Atualmente temos cantores que exploram o repertório pomerano em Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Vila Pavão e RS. Em Vila Pavão temos a Banda Up Pomerisch. Também temos compositores como Jorge Kuster Jacob (letra) e Nicolas Berger (música) enfocando a história e a identidade cultural atual pomerana. No Rio Grande do Sul temos bandinhas típicas pomeranas.

A vestimenta de clima tropical dos pomeranos brasileiro também chama atenção. Os homens apreciam um belo chapéu de feltro, ornamentado com uma pena colorida. Em função do calor, a roupa costuma ser leve (tergal) com a calça e camisa passados a ferro de passar. As mulheres gostam de portar longos vestidos coloridos, floridos. Hoje os tradicionais grupos de danças trazem trajes típicos do inverno europeu. Cada detalhe tem sua explicação. Assim, de um lado temos a vestimenta do rigoroso frio europeue do outro a vestimenta leve adaptada ao rigoroso calor brasileiro.

A dança vem a ser outra manifestação típica. Na Idade Média, os pomeranos devem ter tido mais de 5 tipos de danças típicas e que na Europa faziam parte do bailado deste povo. Nos dias atuais, muitas ainda são apresentadas pelos tradicionais grupos de danças no ES, RO, RS, SC, MG e PR. Só no tradicional casamento pomeranos, além de centenas de músicas tocadas pela concertina, ainda temos a dança no “quebra louça”, a “dança das noivas”, a “dança da vassoura”, entre outras e que animam os três dias dessa festa.

Artesanato, marcenaria e carpintaria são áreas que trabalham com madeira. Entre os pomeranos temos verdadeiros artistas no artesanato com a madeira. Muitas peças são trabalhadas na construção de casas típicas e de moveis para o dia a dia do pomerano. Desde os tradicionais baús (verdadeiras obras de artes), armários, prateleiras, cristaleiras, bancos, mesas, gamelas, portas, janelas, varandas, pilões, camas, berços, lambrequins (fazem das casas grandes “caixas de presentes de natal”), desnatadeiras, peneiras, balaios, fazem parte das muitas utilidades para o dia a dia da vida dos agricultores pomeranos. Também citamos os tradicionais moinhos de fubá, tocados à água e que fazem o verdadeiro fubá para o brote. O fubá de moinhos industriais, tocados a energia, não serve para a preparação do brote. O efeito da sua trituração mais rápida leva ao aquecimento, modificando o gosto do fubá.

Uma outra manifestação cultural é a arquitetura pomerana. Mesmo aqui no Espírito Santo de clima tropical, de longe reconhecemos uma casa típica pomerana. Altas do chão, grandes varandas, com diversas janelas, frestas no assoalho de tábuas, tudo para fugir do calor e com as suas cores em azul e branco. Diferente das habitações construídas no rigoroso frio europeu e do sul do Brasil. Com poucas janelas, paredes grossas, sem varandas e literalmente coladas no chão para combater o frio.

Os pomeranos também tem seus museus. Os principais museus pomeranos estão em Santa Maria e Vila Pavão. Santa Maria tem o Museu Pomerano localizado praticamente na sede da cidade. Pequena casa no estilo pomerano com centenas de peças antigas da época da colonização. Tem também informações históricas e culturais para eventuais pesquisas. Em Vila Pavão está o maior museu pomerano do Brasil. O museu recebe o nome do Franz Ramlow por ter sido na sua casa, onde criou sua família e sendo um dos primeiros colonizadores de Vila Pavão, além de articulador da imigração para Vila Pavão. A casa também servia de local de orações (cultos luteranos) nos primeiros três anos. Depois cedeu um terreno em frente à sua casa, para a construção da primeira igreja luterana no município. Foi também nessa casa que, no início da década de 1970, ficou hospedado, por vários dias, o pomerano e pesquisador Klaus Granzow. Ainda existem outros museus, como o de São Lourenço do Sul (RS), Pomerode(SC) e Afonso Claudio (ES).

Os pomeranos também têm sua religiosidade, seja popular ou como oficial. Oficialmente a maioria dos pomeranos eram de confissão luterana, seja de Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil/IECLB ou da Igreja Evangélico Luterana do Brasil/IELB. No início da colonização, a maioria, mesmo tendo ficado aproxima damente 10 anos sem um pastor(1859-1870), não perdeu a sua identidade luterana. A benzedeira e o médico de raízes de forma discreta, sempre fizeram parte da religiosidade popular pomerana, mesmo que isto, por muito tempo fosse condenado pela igreja oficial. Hoje até existe um projeto de Medicina Alternativa com horta medicinal. É um modelo e que serve de pesquisa para a chamada saúde natural da região norte do Espírito Santo.

A literatura pomerana sempre esteve presente na vida desse povo. Mesmo com toda história conturbada na Europa onde o território pomerano era um permanente palco de guerras entre as grandes nações, entre o oriente e o ocidente. Os pomeranos sobreviveram. Klaus Granzow, escritor e jornalista, fez muitos registros sobre a história pomerana recente. A partir da sua visita ao Brasil, na década de 1970, fez amplos resgistros em livros. No Brasil, no final da década de 1980 até hoje surgiram diversas obras literárias. Inclusive o jornal pomerano (Pommerblad) que circulou bimestralmente de 1998 até 2008 e tinha como objetivo de integrar, divulgar, dar visibilidade a cultura pomerana das comunidades brasileiras. A Folha Pomerana, com suas edições semanais, já circula há mais de oito anos. Depois surgiram diversas teses universitárias e livros sobre os pomeranos. Entre os principais autores de livros e pesquisadores pioneiros, podemos citar Helmar Rölke, Ismael Tressmann, Erineu Foerste, Ivan Seibel, José Carlos Heinemann, Rodolfo Gaede, Jorge Kuster Jacob. Com o avanço da tecnologia e governos mais populares surgiram projetos culturais e os pomeranos chegaram às telas do cinema. Martin Boldt, de forma satírica, fez diversos filmes com muita qualidade técnica sobre os pomeranos capixabas. O pesquisador e sociólogo Jorge Kuster Jacob também teve dois editais premiados que viraram documentários nas telas da TV, cinema e redes sociais. Um vídeo (“Bate-Paus”) de 11 minutos foi traduzido para várias línguas e foi exibido durante a copa do mundo de futebol de 2006 na Alemanha. Retratava a perseguição aos pomeranos no Espírito Santo. Antes e durante a II Guerra Mundial por sua suposta vinculação ao nazismo. De 1990 para cá, surgiram vários outros documentários em filmes e em vídeo.

Muitos Programas de rádio sobre os pomeranos foram aparecendo e podem ser encontrados nas redes sociais. Destacamos o pioneiro “Raízes Pomeranas” feito por Adilson Rossemam na Rádio Sociedade de Espigão do Oeste/RO. Em Vila Pavão tivemos um programa de rádio todos os domingos com duas horas de duração de 2005 até 2021. Esse programa chegou a gravar um CD de Concertina e dois CDs com piadas em pomerano.

Ainda hoje, os símbolos, como a bandeira, o hino e o brasão da antiga Pomerânia Báltica, fazem parte da história desse povo. Mais recentemente, o brasão e a bandeira tem servido como símbolos da identificação de municípios brasileiros com grande população pomerana. Exemplo disso são a bandeira e o brasão de Vila pavão. Temos também o grande portal da cidade de Pomerode, mandado edificar a partir de um modelo secular existente na cidade de Stetin. Da mesma forma o portal de Espigão do Oeste, em Rondônia, identifica a sua pomeranidade.

Atualmente os pomeranos também têm grande presença nas redes sociais.

A Pomerânia de hoje parece ser muito brasileira. Afinal, vivemos no Brasil. Em outros países, há poucos remanascentes pomeranos que ainda preservam as suas tradições. O maior grupo está em Visconsin, Estados Unidos da América. Ainda há outros no Paraguai, na Australia, na localidade de Chiloé, no Chile e, em alguns países da América Central, ainda existem algumas familias que falam a língua pomerana. No Brasil temos milhares de crianças com 7 anos ou mais, que ainda falam a língua pomerana. Na Europa temos muito poucos e a maioria é constituida de idosos com mais de 70 anos. Com mais de 400 mil pomeranos no Brasil não seríamos um dos 30 maiores países do mundo, mas com certeza também não seríamos um dos 30 menores do mundo. O mesmo vale para a questão territorial. Basta pesquisar e descobrir que a Pomerânia, ao longo de sua história, por detalhes, deixou de ser um grande país. Porém, nunca teve grandes lideranças e nunca teve uma força militar condizente.

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