Arte, Crônicas e Poesia
A comida esfriou
Publicado em 18/08/2026 às 13:51

O ano passou da metade. Quem neste momento não está ligeiramente assustado com a rapidez em que tudo tem transcorrido? Acordamos, vamos ao trabalho e após retornamos para nossas casas, geralmente cansados, muitas vezes frustrados e sem muita reflexão nos deparamos com um novo dia.
Ao ser questionado sobre esse fenômeno, no momento não tive uma resposta satisfatória, o cansaço perene, não apenas no corpo, tirou qualquer inspiração de uma resposta que inspirasse ânimo.
A cada dia, mais certezas vão consigo embora. Ao anoitecer sinto-me como uma fotografia antiga em que a imagem esvai aos poucos. Curioso que na adolescência tinha ilações de a cada instante ser uma pessoa melhor intelectualmente e moralmente. O tempo demonstra o quão chatos são os paladinos da moral.
A vida não permite segundas chances. Essa ideia ventilada de recomeços, são balelas, nas matérias essenciais é somente uma chance apenas que temos. Infelizmente, essa percepção vem muitas vezes após a perda. Um tempo atrás li um texto, era uma carta, arcaica hoje em dia. No título estava: “O dia que ele não voltou”. Obviamente, não me recordo de todos os detalhes, esses são os pontos que eu guardei mais nítido na memória, e que seguem abaixo.
“Era uma segunda-feira, havia trabalhado e cumprido muitos prazos pendentes, estava exausta. Trabalhei até as 19 horas sem perceber o decurso do tempo. Fui para casa e preparei o jantar, separei feijão, cortei a carne bem picadinha, comecei o preparo do arroz. Enquanto as panelas estavam no fogo, assistia pelo celular vídeos sobre notícias recentes dos famosos. Estava focada em fazer o jantar para meu esposo levar para o trabalho na terça-feira. Homens são muito relaxados com a saúde, faço questão sempre quando possível de preparar a marmita com muitos legumes e salada.
O vídeo terminou e fui observar o horário, já passava de o habitual do meu marido chegar. O trânsito sempre caótico na nossa cidade, imaginei que tivesse algum jogo ou evento que não sabíamos. Bom, pensei, chegará e encontrará comida quentinha. Aproveitei e cortei tomates cerejas, cortei pepinos quadradinhos e temperei com muito alho e salsa. Preparei a mesa, coloquei as taças que ganhamos no casamento, pano branco de renda que minha vó me deu. Abri uma garrafa de vinho e fui aguardar no sofá.
“A comida estava esfriando, comecei a achar estranho, peguei o celular e mandei mensagens no WhatsApp, sempre aparecia os dois pauzinhos de mensagem enviados, dessa vez nenhum indicativo. Decidi ligar, caiu na caixa postal, fiz mais cinco ligações.
Nessa hora, pensei que tivesse deixado o celular descarregar, sempre esquecia de carregar, confiava que iria durar o dia todo.
Quando o relógio marcou 23h33 liguei para minha mãe e meu pai. Vieram para minha casa, já passava de meia noite e nenhum retorno. Liguei na empresa dele, não tinha o telefone de ninguém. Meu pai resolveu ligar em hospitais, depois de buscar em cinco, descobriu que ele havia entrado na emergência no início da noite. Ele infartou de forma fulminante, foi socorrido na estação de ônibus e encaminhado para o hospital.
Meu amor, nesse dia você não veio para jantar comigo, não teve nenhuma pergunta sobre o meu dia, nenhuma brincadeira, dormirei sem seus beijos. Você saiu com raiva pela manhã, não poderei te pedir desculpas, terei que passar a vida toda com culpa. Não poderia ter ido embora sem mim! Me perdoe pela impaciência, por não estar ao teu lado, quando mais precisava…”
A vida não tem roteiro, a cada dia uma palavra é escrita e no derradeiro encontraremos o ponto final. O silêncio da dor é o mais dilacerante!