O que aprendemos com o final desta copa?

Anaximandro Amorim , 18 Julho 2018

O que aprendemos com o final desta copa?

“A França não merecia ter ganhado esta Copa!”. Por quê? Parecia coisa de criança, quando perde a brincadeira para o coleguinha e diz: “Não valeu!”. Rede social é, antes de mais nada, um repositório de preconceito e ódio, então, resolvi colher algumas “pérolas” para construir esse texto e comprovar que até mesmo o futebol pode ter muito a nos ensinar enquanto cidadãos. Eis: 

1. “Os franceses já tinham uma vitória. Poderiam ter deixado a Croácia ganhar.” Bacana! Vamos fazer o seguinte, então? Deixamos todas as equipes terem cinco vitórias e aí buscamos o hexa. Pode ser?

2. “A França era a equipe mais cara do mundial”. Ter investimento ajuda, mas, se fosse assim, a Alemanha não seria eliminada pela Coreia do Sul. Nem a Croácia, pequeno país dos Bálcãs, chegaria tão longe, o que significa, Copa do Mundo não é só uma questão de investimento, mas de esforço também.

3. “A seleção ‘africana’ da França era cheia de imigrantes”. Que eu saiba, apenas dois eram imigrantes. Os demais, franceses de nascimento. O Brasil é um país de imigrantes, e eu me choquei ao ver descendentes de italianos, portugueses e até africanos levantando esse “argumento”. Quanto ao “africana”, a nossa, a meu ver, é mais ainda. E, qual o problema? Percebo racismo?

4. “Só assim para a França gostar dos seus imigrantes”. Mais uma vez: a seleção era (quase) toda francesa de nascença. De fato, o problema da xenofobia é forte não apenas lá, mas na Europa em geral. Essa vitória, além de ser um tapa na cara dos preconceituosos, mostra como é possível a integração graças ao desporto. Em tempo: a Croácia, ao revés, é um país de “emigrantes”. Isso também a desqualificaria?

5. “A França podia perder a Copa porque ela ganhou da gente em 1998”. Interessante: o maior vexame de história do nosso futebol foi o 7 x 1 da Alemanha e em casa. Por que tanta “birra” com um país só?

6. “A França é um país muçulmano e de esquerda”. Misericórdia! A França é “de esquerda” quando ascende um governo de esquerda e vice versa. Como o Brasil e qualquer país do globo. Ela também não é predominantemente muçulmana, ainda que o islã tenha muitos adeptos ali. Aliás, falar da religião dos outros é feio, hein?

7. “Franceses são metidos e arrogantes e não mereciam ganhar essa Copa”. Golpe baixo: ofender a moral do adversário. Coisa de mau perdedor. Há tanta gente metida e arrogante na França quanto no Brasil. O contrário também. Ou será que aqui somos todos gentis e educados uns com os outros?

De repente, a Croácia virou uma espécie de “Brasil que estava dando certo”, até que ela esbarrou na “Poderosa França”. Aí, “não valeu”. E, como soe ao nosso povo, começamos a procurar desculpas, a desqualificar o oponente, sem fazer um exame de consciência: nossa seleção fez uma das piores campanhas de sua história, com um “brilhareco” contra o México, que reabilitou Neymar por alguns instantes. Culpa do Tite? Não, nossa: somos o povo do “improviso”, do “jeitinho”, do “coitadinho”, queremos tudo “fácil” e, quando é para valer, damos vexame. Nosso futebol, hoje, é o retrato fiel do que nós, brasileiros, nos tornamos.

Duas equipes não chegam a uma final de Mundial à toa. De um lado, a garra; do outro, a técnica. Venceu a segunda. Poderia ter sido a primeira. Você tem o direito de torcer para quem você quiser, mas, antes de tentar desqualificar quem ganhou, pense bem: craques não se formam de um dia para o outro; medalhistas olímpicos, tampouco. Em geral, esses países investem em educação e desporto desde a infância. De todas as lições que essa Copa nos traz, que seja essa a mais importante: ganhar custa sacrifício, mudança de mentalidade. Estamos mesmo dispostos a isso? Ou preferimos continuar reclamando? 2022 está logo ali adiante.

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