Arte, Crônicas e Poesia

Para Preta, com carinho

Publicado em 04/03/2022 às 15:15

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Tudo na nossa vida, um dia, vira lembranças! Sejam elas boas ou ruins, mas sempre existe aquela que te impulsiona a lutar todos os dias no trilhar da caminhada. Guardo muitas memórias da minha vida, mas a gaveta que mais visito é a do exemplo de vida da minha mãe, minha “PRETA”.

Nasci em 1981, no dia 05 de fevereiro, na Grande Vitória, em um bairro simples, chamado Rosa da Penha, localizado no município de Cariacica (ES). Lembro-me do cheiro de terra molhada nos dias de chuva e da poeira acumulada nos móveis.

Sou a “mais velha” entre quatro irmãos – espera! Vou mudar esse termo, “mais velha”, e vou escrever “nasci primeiro”, me sinto melhor assim! (risos)… Continuemos… Embora tenha nascido em uma época em que meus pais não tinham uma boa condição financeira, pude ter uma infância bem divertida, saudável, com brincadeiras de “pé no chão” (pique-bandeira, pigue-pega, queimada). Naquela época não havia tecnologia, esta que – hoje -, está deixando muitas crianças vazias.

É só fechar os olhos e lembrar! Consigo sentir o aroma do café matinal que minha mãe fazia para mim, antes de ir à escola. À tarde, ajudava minha mãe, que estava sempre muito atarefada, com suas “montanhas coloridas”. Apesar dos momentos que eu tinha para brincar, sempre havia também o horário de trabalho doméstico, pois com o nascimento dos meus outros irmãos, tive que “crescer”. As atividades pequenas sempre eram minhas, depois fui me acostumando.

Meu pai era caminhoneiro e ficava muito ausente por causa da sua profissão. Minha mãe – mulher de braços fortes, cabelos ralos e de pele escura, ganhara o apelido de “Preta”, dado pelo meu pai, que tem sua família de origem italiana, bem diferente da família da mamãe. Ela sofreu muito preconceito por parte do meu avô paterno; que com o passar dos anos, foi aprendendo a respeitar a grande mulher guerreira com a qual seu filho tinha se casado.

Preta lavava roupa pra fora, a fim de completar as despesas da casa. Eram trouxas e mais trouxas de roupas. “Montanhas coloridas”: montanhas de roupas se formavam atrás dela.

Não comemorávamos festas natalinas em família, pois meu pai sempre estava na estrada e não tínhamos condições financeiras para vivenciarmos esse momento. O máximo que eu ouvia eram os fogos da meia-noite, que na minha inocência de menina entusiasmada, corria para a janela só para sentir mais de perto no coração o mesmo estrondo dos foguetes.

Mesmo com tantas dificuldades, todo ano, Preta seguia um ritual que criara para alegrar os filhos. Pedia para que colocássemos um prato enfeitado debaixo de uma árvore de natal improvisada com uma samambaia, planta cuidadosamente cultivada para ser enfeitada nessa época, pois esperávamos a nobre visita do Papai Noel em nossa casa. No outro dia, o prato aparecia com doces e chocolates. Ah!! Hoje imagino o esforço da minha Preta Guerreira, que mesmo com a ausência do meu pai, vivia pra cima e pra baixo com sua trouxa de roupas na cabeça, lutando para que nada nos faltasse.

Jusceni André (a Preta)

O que também era muito esperado por mim e pelos meus irmãos, era o pós-natal, uma vez que, todos os anos havia festa de confraternização natalina na firma do meu pai! Lá sim conseguíamos nos divertir em família, sem a ausência de nenhum membro. Tinha almoço, doces, picolé, ganhávamos brinquedos doados pela firma! Ficávamos tão felizes, que não queríamos brincar com o brinquedo. Só o fato de sentirmos o cheiro de brinquedo novo já nos trazia uma enorme alegria. Tempos bons eram aqueles, quando mesmo com as lutas e o sofrimento (tudo era difícil), mas tinha seu valor.

Estudei o ensino fundamental e médio na EEEFM Hunney Everest Piovesan, uma escola bem dinâmica! O que eu mais gostava era que lá eu era vista como uma adolescente que só queria responsabilidades de adolescente. Tínhamos grupos de vôlei, fazíamos campeonato. Nossa, como era bom!! Professores dinâmicos correndo com a pasta na mão pelos corredores da escola! Mas,lembro-me, em especial, que em certo momento do ano, uma escola se destacava muito, era a EEEFM Talma Sarmento de Miranda. Pedi para a minha mãe me ajudar a entrar naquela escola, eu queria estudar lá! Porém, ela nunca tinha tempo. Até que um dia, fui lá sozinha. No momento, fiquei feliz, pois com muita simpatia a diretora havia me recebido, e com o meu jeito tímido, conversei com ela. Mas ela me disse que não tinha vaga. Eu sabia que era mentira, pois minha vizinha, naquela época, conseguiu matricular o filho dela lá. Sem êxito nenhum, saí de lá aos prantos, chorava muito… Meus pais, não sei se era por eles terem tido uma precária alfabetização, não davam muita importância para isso. Só pediam para que eu deixasse pra lá. Pois bem! Deixei pra lá! Continuei os meus estudos na escola em que já estava!

Aos dezesseis anos, comecei a estudar no período noturno, pois havia arrumado um trabalho de embaladora num supermercado localizado na avenida Campo Grande. Trabalhava de dia e ia muito cansada para a escola de noite.

Foi assim a minha rotina até os dezoito anos, idade que tinha quando conheci o meu marido. Ele morava em Rio Ponte, Domingos Martins. Devido a essa distância, nos víamos de quinze em quinze dias. E, na paixão da adolescência, em menos de um ano, noivamos e casamos.

Foi no ano 2000 que saí de Rosa da Penha e fui morar no interior. Foi uma mudança impactante na minha vida. Cultura diferente, a fala em Pomerano que me desconcertava, porque eu não entendia nada. Enfim, vários hábitos diferentes.

Em menos de um mês, já queria voltar para casa dos meus pais. Chorava muito, me sentia sozinha naquele lugar, que era lindo: árvores nativas frondosas, cafezais… Entretanto, naquele momento, eu não me identificava com ol ugar, por ter morado até aquela idade na zona urbana.

No auge da juventude, eu já era esposa e com filhos gêmeos para criar. Nessa fase, caiu sobre mim uma depressão devastadora, pois uma crise financeira tomara conta da minha família e ainda a responsabilidade de cuidar de todos os aspectos familiares me deixou esgotada, desgostando da vida.

E assim prosseguiam meus dias, nada mudava na rotina da minha vida. Certo dia, recebi a visita da prima do meu marido, sabendo do momento em que estava passando, me aconselhou a procurar momentos de prazer. Disse a ela que gostava de ler. Então, ela me incentivou a fazer uma graduação. Pensei… pensei… e resolvi procurar mais informações em uma universidade na qual estava se formando a primeira turma de licenciatura de Letras a distância. Fiz minha inscrição, prestei o vestibular, passei…

Por isso reforço: “Com muita dificuldade cursei Letras.” Iniciei o curso em 2004, ainda não sabia dirigir e tinha poucos amigos. Bom, na verdade, acho que nenhum. No primeiro encontro da turma, era um seminário de três dias, eu teria que ficar três dias fora de casa! Meu marido, que era contra meus estudos, me deixou às 5:00H da manhã num ponto de ônibus, jogando minha bolsa no chão e indo embora sem ao menos olhar para trás. No relento daquela madrugada, um homem parou me ofereceu uma carona. Desnorteada e confusa, aceitei. Trocamos o mínimo de frases, ele me deixou na frente da faculdade. Hoje tenho a convicção de que essa carona foi enviada por DEUS, porque ELE conhecia os meus objetivos para a vida.

Em 2005 consegui minha primeira experiência na sala de aula. Recebi uma ligação da secretaria de educação, me chamando para substituir uma professora de Matemática. Nossa, foram tempos difíceis! Mas dei conta.

Em 2006 consegui a regência de uma sala de aula como professora de Língua Portuguesa. Minha vida começou a melhorar. Meu marido agora, vendo que eu estava no caminho certo, começou a me apoiar.

Me formei com o meu terceiro filho no colo, pois a vontade de vencer, me deu coragem para chegar até aqui.

Me adaptei aos costumes, e rotina dos pomeranos, mas sem esquecer das minhas origens. Já vivo aqui há vinte e dois anos e não me vejo mais voltando a morar em Vitória.

Hoje, sou professora, uma mulher independente, que sem esquecer da infância que vivi e da criação que a Preta me deu. Luto a cada dia com a convicção de que a trouxa de roupa que minha mãe carregava na cabeça, com muita dificuldade, é o impulso que uso como exemplo para vencer os obstáculos diários que surgem no meu caminho.

Porque “lutar sempre” foi o exemplo que ela, minha Preta me deu!

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