Arte, Crônicas e Poesia
A coragem de escolher
Publicado em 14/07/2026 às 13:57

A cada esquina da vida surge a dúvida: qual caminho seguir? Essa é uma marca da existência, está diariamente submetido a decisões importantes, apesar que no instante, no mais das vezes não termos todas as informações necessárias para uma decisão clara. Os detalhes sempre escapam, infelizmente. Reflito isso ao lembrar das veredas que escolhi na adolescência. Ao ponderar de forma minuciosa, muitos caminhos alguém escolheu para mim.
Todavia, as consequências foram idênticas se eu mesmo tivesse escolhido, por isso dizem que a omissão também é uma escolha, magoa e entristece, “não era o que queria’’ não convence e nem isenta.
E cá estamos diante de um mistério que jamais teremos qualquer lampejo de resolução: o que teria acontecido se tivesse tomado caminho diferente, e percebo que são poucos que estão satisfeitos onde estão, regressam o pensamento ao derradeiro instante que ingressaram na estrada. No meu usual trajeto de ônibus, haviam dois idosos em um animado diálogo na minha frente, discutiam e vangloriava-se da juventude. Um deles afirmava que se não fosse um problema no joelho teria sido um excelente jogador de futebol, outro já dizia que tinha convite de morar no exterior e que se não fosse pela família teria ido e certamente seria um homem rico.
O saudosismo dominou a conversa, esse diálogo, melhor, monólogos sequenciais, foi interessante que ambos ao final da vida tinham o olhar fixo em situações que nada poderiam fazer para mudar e transpareciam grande frustração no momento atual. A conversa prosseguiu depois para amenidades sobre tempo e política e tornou-se desinteressante a observação. Recordo de uma fala de um antigo professor: “A reflexão sempre vem tardiamente”.
Há sempre o desejo de ver a ilusão a cada instante abrandar-se como a névoa extirpada ao avanço dos raios solares, entretanto somos reféns do medo e das mudanças, nos ancoramos nos hábitos e o chamamos de sentido existencial. E mesmo vivendo a dor e angústia, diante do novo, optamos pelo conhecido. Tenho observado que esse medo está cada vez mais intenso e paralisante, parece correr na veia das pessoas, haja vista o esforço que se tem dedicado a isolar-se das pessoas, do mundo e de si mesmas.
Cada vez é maior o número de pessoas que não querem exatamente “nada”, não demonstram qualquer ânimo, tudo lhes são indiferentes, mergulharam-se em uma realidade própria. Nessa semana, vi a outra face da mesma moeda, deparei com a notícia do número crescente de namoros com a inteligência artificial. As implicações e razões são múltiplas, mas um ponto é o principal; maior que o medo da vida é o medo do outro. Esse amor apaixonado é o que percebo que as pessoas têm buscado matá-lo, pois foge totalmente ao previsível, julgam-se protegidos da rejeição. E cá vemos um pouco do paradoxo das relações humanas.
Destarte, viver exige coragem!