Arte, Crônicas e Poesia
Pipas na tempestade
Publicado em 02/07/2026 às 08:29

Amanheceu frio hoje. Ao levantar, observei o novo dia – o sol nascendo de forma preguiçosa. Veio a questão: por que o mundo valoriza tanto o caos?
Durante a semana, tive um colóquio com alguém que, por educação, perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que sim — resposta automática quando não há intimidade. Acrescentei, quase sem pensar, que havia entendido que a incompletude faz parte da vida. Recebi um olhar de estranhamento. Naquele instante, percebi: não havia entendido nada do que eu havia dito.
Demorei anos para compreender certos paradoxos. Um grande amigo sempre me alertou: nunca seja refém de pessoas ou situações. É um embate constante. A liberdade não vem sem dor — nem sem coragem.
O mais inquietante é que as hipocrisias raramente se apresentam como tal. Muitas vezes, vestem-se de verdade. Estão por toda parte. Na medicina, fala-se em saúde enquanto se alimenta a doença. No ambiente corporativo, vendem-se discursos de crescimento e pertencimento, mas o que se vê é competição silenciosa, padronização e desgaste.
Tenho a impressão de que o mundo prefere o indivíduo em falta — sempre buscando, sempre incompleto. Como se o vazio fosse necessário para manter tudo em funcionamento. Uma engrenagem sustentada por desejo e medo.
Nas relações, o cenário talvez seja ainda mais delicado. Pessoas feridas, ferindo outras, ciclos que se repetem. Talvez por isso o afeto tenha migrado, tantas vezes, para o que não exige enfrentamento — como os animais, que não nos obrigam a encarar o abismo do outro.
Penso, às vezes, que herói é quem consegue permanecer indiferente a tudo isso. Não me ocorre ninguém. Talvez exista alguém que baste a si mesmo, imune ao ruído, inteiro. Aos demais, resta sobreviver — como pipas à mercê da tempestade.
Por aqui, sigo como uma biruta ao vento. Quem sabe, em algum momento, consiga ajudar algum viajante a encontrar direção.