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Arte, Crônicas e Poesia

Saudade

Publicado em 06/12/2025 às 13:26

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Houve um tempo que brincar na rua bastava. Estar com os colegas, jogar bola, soltar pipa, jogar bolinha de gude. Ficar até tarde na rua envolto em imaginações de super heróis, em discussões acaloradas sobre melhores jogadores.Tudo era o bastante.

Quando tudo mudou? As conversas tornaram-se mais cínicas, as amizades sumiram, as brincadeiras ficaram sérias demais, nada é suficiente, nenhuma saciedade. O constante anseio por algo melhor, alegria e tédio em uma simbiose perene.

Houve um tempo que o menino sonhava, acreditava em um mundo melhor, faria dele um grande parque de diversões, todos seriam felizes, doces e brincadeiras para todos. A alegria dominaria a vida de todos. Talvez aí o maior erro: nunca dá certo querer mudar o mundo, ele não precisa de ninguém, é o que é. A única mudança que realmente importa é a consigo mesmo, ir menos pior do que entrou aqui.

E no fundo trata-se sobre fé e silêncio, fé que o trabalho árduo terá algum retorno, assim como o agricultor que labuta com a terra. Prepara e separa as sementes e as lança ao solo e aguarda a chuva, não tem certeza que caíra. E ao cair espera que venha na medida adequada, para que enfim venha a ter frutos. Enquanto aguarda, tem apenas o silêncio, nada é garantido. Quem planta não necessariamente irá colher.

A vida inteira ouvi o contrário. Sempre me ensinaram que pela força dos meus braços determinaria alguma coisa de relevante. A ilusão durou até o instante em que não consegui segurar a mão de quem eu amava, que partiu. Partiu dos meus braços para sempre. De fato, não existe nenhuma justiça humana.

Deus, por que viemos aqui? Quando o quebra-cabeça fará sentido? Parece que sempre falta uma peça e que a luta é totalmente sem sentido. Eu lembro que minha visão era mais limpa, hoje tudo está tão turvo, não lhe vejo, o Senhor não mais permite, sou um andarilho sem chão. Sou apenas uma fumaça que o vento dissipará.

Houve um tempo que tudo era colorido, havia um quadro pendurado na parede da sala, tinha uma casinha, céu azul e um belíssimo lago repleto de patos e cisnes. Tudo parecia factível algum dia, uma quimera de liberdade, tão distante do que conheci profundamente, viadutos com pessoas alojadas por baixo, casas de papelão e madeiras e uma multidão faminta e sedenta por sobreviver. Não havia qualquer cor nesta existência, apenas a luta instintiva por passar os dias, sem morrer, sem frio ou fome.

Quão ruim é ver tudo deteriorar-se na tristeza e desalento, as lágrimas não consolam mais, uma dor silenciosa, a constante sensação de estar em queda, sou uma criança que observa o seu castelo de areia ser engolido pelas ondas da mar e grita em vão para que as aguas parem de destruir tudo. Tnta dedicação, tanto tempo investido e em um instante tudo é levado para longe mim. Não existem palavras que consolem, minha querida, o seu brilho não consegue me iluminar, a escuridão é sempre maior no coração.

E ao final, somos apenas isso: Saudade em um coração quebrado!

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