Relatório da Apex Partners aponta oportunidades e desafios para o café capixaba
Publicado em 29/07/2026 às 14:23
Stefany Sampaio é engenheira agrônoma e especialista da Apex Partners
Texto: Julio Huber e Bruno Faustino / Fotos: Apex
O estudo analisa o mercado global e mostra como o Espírito Santo pode se beneficiar do avanço do consumo de café, especialmente na Ásia
O avanço do consumo de café na China pode representar uma oportunidade estratégica para o Espírito Santo e para o Brasil nos próximos anos. Com as importações chinesas crescendo de aproximadamente 131 mil sacas em 2002 para mais de 6 milhões em 2025, o país asiático se consolida como um dos principais vetores de expansão da demanda mundial, em um movimento que pode abrir espaço para novos mercados e ampliar a procura pelo café brasileiro.
A análise faz parte do Panorama do Café – 2º trimestre de 2026, relatório produzido pela equipe de Research da Apex Partners e lançado oficialmente na última semana, durante a Feira de Agronegócios Cooabriel, em São Gabriel da Palha no Noroeste do Estado. O estudo reúne dados, análises e perspectivas sobre o mercado global, brasileiro e capixaba, com o objetivo de oferecer informações que possam auxiliar produtores e demais agentes da cadeia na tomada de decisões.e
O relatório aponta que, caso a China alcance apenas metade do consumo per capita registrado atualmente na Coreia do Sul, a demanda adicional poderá representar quase 40 milhões de sacas por ano, volume equivalente a cerca de 23% do consumo global atual. A perspectiva ganha importância para o Espírito Santo devido à posição de destaque do Estado na produção de conilon e na indústria de café solúvel, segmento com forte potencial de expansão nos mercados emergentes asiáticos.
DESAFIOS – Ao mesmo tempo em que identifica oportunidades de longo prazo, o estudo chama atenção para um período de mudanças no cenário internacional. Depois de dois anos de déficit na oferta mundial, período que levou os preços do café a níveis historicamente elevados, a safra 2026/27 aponta para uma recuperação da produção e um possível superávit global entre 7 milhões e 10 milhões de sacas. Atrasos na colheita, estoques ainda baixos e as incertezas climáticas relacionadas ao El Niño, porém, mantêm o mercado sujeito à volatilidade.
Para Stefany Sampaio, engenheira agrônoma e especialista da Apex Partners, compreender esse cenário é fundamental para quem vive da atividade. Segundo ela, o relatório foi preparado especialmente para o ambiente da Feira da Cooabriel justamente para aproximar o produtor das informações que podem influenciar suas escolhas.
“A nossa ideia é fornecer para o produtor, de fato, informações que ajudem ele na tomada de decisão. A gente quer que eles consigam enxergar o mercado e ver o que de fato pode ajudar eles a tomar decisão”, afirmou.
A proposta do Panorama do Café é justamente ampliar essa visão. O documento não se limita ao comportamento dos preços, mas analisa a cadeia cafeeira desde a produção e o mercado internacional até os movimentos de consumo, investimentos, industrialização, exportações e perspectivas para os próximos anos.
Café como força econômica do Espírito Santo
A relevância do relatório ganha ainda mais peso quando se considera a dimensão da cafeicultura para o Espírito Santo. O Estado é o maior produtor nacional de conilon e se destaca também pela indústria de café solúvel e pela atividade exportadora. O diferencial capixaba, segundo o estudo, está na integração entre diferentes etapas da cadeia, reunindo produção agrícola, processamento industrial e exportação.
Na avaliação de Stefany, o café ultrapassa a condição de uma simples commodity e exerce papel estratégico no desenvolvimento econômico do interior capixaba. “O café é hoje o principal produto agrícola do Espírito Santo. Nós somos os maiores produtores de conilon, especialmente. E, na Apex, entendemos que esse produto, muito mais do que apenas um produto agrícola, é um produto de geração de renda e desenvolvimento na cidade do interior”, disse.

Ela destaca ainda a capilaridade da atividade no Estado e a capacidade de geração de valor ao longo da cadeia. “Aqui a gente entende que café não é só um grão. Aqui, café de fato é uma moeda de troca para os produtores, mas também um produto que pode gerar valor agregado”, enfatiza.
PRODUTIVIDADE – O Panorama do Café aponta que o Espírito Santo praticamente dobrou a produtividade por hectare na última década, sem que esse avanço dependesse exclusivamente da expansão da área cultivada. O resultado está relacionado a fatores como irrigação, adensamento, manejo nutricional, tecnologia e substituição de lavouras envelhecidas por variedades clonais de maior rendimento.
Esse processo de transformação produtiva é considerado um dos principais diferenciais competitivos do Estado. Ao mesmo tempo, o relatório mostra que a cafeicultura capixaba mantém forte presença de propriedades familiares e de pequena escala, o que reforça o impacto da atividade na economia dos municípios.
Para Stefany, esse avanço da produtividade representa uma mudança importante no perfil da produção. Segundo ela, o crescimento não está necessariamente na ampliação das áreas, mas na capacidade de produzir mais em cada hectare. “A gente não tem mais produtores aumentando suas áreas de plantio, mas a gente tem em cada hectare um valor de produção maior”, comenta.
Da produção de grãos à agregação de valor
Outro ponto central do relatório é a necessidade de avançar na agregação de valor. O estudo mostra que, quando são consideradas apenas as exportações de café verde, os países produtores aparecem entre os líderes. Porém, quando entram na conta produtos industrializados, como café solúvel, torrado, descafeinado e extratos, países que não produzem café ganham protagonismo por concentrarem etapas de processamento e marcas.
É nesse movimento que o Espírito Santo busca ampliar sua participação. O Estado já é apontado como um dos principais polos brasileiros de café solúvel, enquanto novos investimentos vêm fortalecendo a industrialização e a transformação do produto.
Em 2025, as exportações capixabas de café solúvel superaram US$ 216 milhões, com crescimento de 28%. O estudo da Apex também destaca investimentos recentes e previstos na indústria cafeeira, especialmente no Norte do Estado, com Linhares se consolidando como um importante polo logístico e agroindustrial.
A estratégia, segundo o documento, é avançar de uma posição baseada principalmente na produção de matéria-prima para uma cadeia capaz de capturar mais valor dentro do próprio Estado.
China pode abrir uma nova fronteira para o café
Entre os principais pontos de atenção levantados pelo relatório está o crescimento do consumo de café na Ásia, especialmente na China. As importações chinesas passaram de aproximadamente 131 mil sacas em 2002 para mais de 6 milhões de sacas em 2025, crescimento de 46 vezes em pouco mais de duas décadas.
A equipe de Research da Apex desenvolveu um modelo econométrico próprio, baseado na análise de 50 países entre 2002 e 2024, para avaliar a relação entre renda e consumo de café. A conclusão é que, em mercados de renda média, como a China, o aumento da renda tende a provocar uma expansão proporcionalmente maior no consumo da bebida.
O relatório faz uma comparação com a trajetória da Coreia do Sul, onde o café passou de um consumo mais restrito para um hábito cotidiano à medida que a renda da população aumentou. Atualmente, enquanto os sul-coreanos consomem cerca de 3,9 quilos de café por habitante ao ano, o consumo chinês está em aproximadamente 0,26 quilo.

Se a China chegar a apenas metade do consumo per capita registrado na Coreia do Sul, o estudo estima que a demanda adicional poderá representar quase 40 milhões de sacas por ano — volume equivalente a cerca de 23% do consumo global atual.
Para Stefany Sampaio, esse movimento pode representar uma oportunidade de longo prazo para o Brasil e, especialmente, para o Espírito Santo. Ela esteve recentemente na China e observou de perto a transformação dos hábitos de consumo. Segundo a especialista, o café vem ganhando espaço entre os jovens chineses e assumindo, em determinados ambientes, uma dimensão associada a novos hábitos e ao estilo de vida.
“O chinês toma café gelado. E ele toma o café como símbolo de status de poder. Então, eu entrevistei muitos jovens que falavam assim: meu avô toma chá, eu tomo café. Então, a gente conseguiu posicionar o café na China como, de fato, um diferencial de gerações”, contou.
CAFÉ CAPIXABA NA CHINA – Stefany também relatou ter levado café da Cooabriel durante sua passagem pelo país, em uma experiência que, segundo ela, simboliza a possibilidade de aproximação entre a produção capixaba e um dos mercados consumidores com maior potencial de crescimento.
“Eu levei café da Cooabriel para a China. Então, quando o chinês me entregava um chá, eu entregava para ele um café. E eu falava: eu espero que da próxima vez que eu vier à China, a gente possa tomar um cafezinho juntos”, brincou.
A avaliação da especialista é que o Espírito Santo está bem posicionado para aproveitar essa possível expansão da demanda, especialmente porque o conilon é uma matéria-prima importante para a indústria de café solúvel, segmento com forte presença nos mercados emergentes asiáticos.

“Se isso, de fato, acontecer com a China, a gente vai ter aí uma boa demanda de café brasileiro. E o Espírito Santo pode se beneficiar com isso? Com certeza, porque se a gente fala de produção de café a nível do Brasil, a gente passa pelo Espírito Santo”, afirma.
Informação para ajudar a decidir
É nesse contexto de transformações que a Apex Partners apresenta o relatório aos produtores e ao setor durante a Feira de Agronegócios Cooabriel. A intenção é transformar dados e análises de mercado em uma ferramenta de apoio para quem precisa tomar decisões em um ambiente marcado por oscilações de preços, mudanças climáticas, custos de produção e novas oportunidades de mercado.
A Apex Partners atua há mais de 12 anos como uma plataforma de investimentos e serviços financeiros, com soluções voltadas às características e vocações dos mercados regionais brasileiros. Dentro da empresa, a área de Research produz análises e conteúdos especializados sobre setores estratégicos da economia, incluindo o agronegócio, com a proposta de ampliar a visibilidade desses mercados e contribuir para decisões de empresas, investidores e agentes da economia regional.
O Panorama do Café segue essa mesma lógica ao olhar para uma das principais atividades econômicas do Espírito Santo sob uma perspectiva ampla: do comportamento da oferta e dos preços no mercado mundial às mudanças no perfil de consumo, passando pela produtividade, industrialização, exportações e oportunidades futuras.
Para Stefany, a cafeicultura capixaba tem uma trajetória que ultrapassa gerações e pode continuar sendo um dos motores de desenvolvimento do Estado. “O café fez parte do passado, está fazendo parte do presente e pode mudar o futuro também”, garante.
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