Queijo é anterior à escrita e teve papel importante na evolução da alimentação humana, diz especialista
Publicado em 24/07/2026 às 11:09
Foto: Magnific
Muito antes de se tornar presença constante em tábuas de degustação e na gastronomia de alto padrão, o queijo já era um alimento fundamental para a sobrevivência humana. Produzido há cerca de oito mil anos, ele surgiu antes mesmo da invenção da escrita e desempenhou um papel essencial ao permitir a conservação do leite por mais tempo, garantindo alimento durante viagens e períodos de escassez.
Essa trajetória é destacada pelo engenheiro de alimentos e pesquisador do Laboratório de Queijos Finos do Biopark, Kennidy de Bortoli, reconhecido, juntamente com sua equipe, como o melhor queijeiro do Brasil. Segundo ele, conhecer a história do queijo ajuda a entender sua importância ao longo dos séculos e sua permanência na alimentação mundial.
“O queijo sempre acompanhou a humanidade. Ele nasceu da necessidade de conservar alimentos, mas acabou se tornando parte da cultura, da economia e da identidade de diversos povos”, afirma o pesquisador.
Estudos arqueológicos indicam que a produção de queijo teve início por volta de 5.500 a.C. Entre as evidências mais antigas estão resíduos encontrados em recipientes de cerâmica na atual Polônia. Registros também mostram que civilizações como as do Egito, do Tibete e do Vale do Indo desenvolveram técnicas semelhantes de fabricação de forma independente.
Além de prolongar a vida útil do leite, o queijo tornou-se uma importante fonte de nutrientes para populações que enfrentavam longos invernos ou grandes deslocamentos. Técnicas como salga, prensagem e maturação permitiram armazenar o alimento por mais tempo, tornando-o indispensável para viajantes, comerciantes e até exércitos.
No Brasil, a produção de queijo começou durante o período colonial. As primeiras cabeças de gado chegaram ao país em 1534, trazidas pelos portugueses a partir de Cabo Verde. Na época, o leite e seus derivados eram produtos raros e consumidos principalmente pelas camadas mais privilegiadas da sociedade.
Entre os episódios curiosos da história está a origem do mito de que manga com leite faz mal. A crença teria sido difundida durante o período da escravidão como forma de impedir que pessoas escravizadas consumissem um alimento considerado valioso pelos proprietários das fazendas.
Mesmo diante dessas limitações, comunidades quilombolas desenvolveram métodos próprios para produzir queijos, utilizando o conhecimento adquirido nos engenhos para fabricar alimentos destinados ao próprio sustento.

Com a expansão da pecuária pelo interior do país, surgiram variedades tradicionais que se tornaram símbolos da produção nacional, como o Queijo Minas Artesanal e o Queijo Colonial. Atualmente, os queijos brasileiros também conquistam reconhecimento internacional pela qualidade e identidade.
“O Brasil deixou de ser apenas um produtor de volume. Hoje mostramos que também somos capazes de desenvolver queijos com identidade própria e padrão internacional de qualidade”, destaca Kennidy.
Esse avanço ficou evidente em 2024, quando o queijo Passionata, desenvolvido pelo Laboratório de Queijos Finos do Biopark, passou a integrar, pela primeira vez, a lista dos dez melhores do World Cheese Awards. Produzido com infusão de maracujá, o produto reforçou o potencial da queijaria brasileira no cenário internacional.
Além das pesquisas, o Biopark desenvolve um projeto voltado à transferência de tecnologia para pequenos e médios produtores do Oeste do Paraná. A iniciativa oferece suporte que vai desde análises laboratoriais até o desenvolvimento de novos produtos, receitas e embalagens.
“Nosso objetivo é unir tradição e inovação para que os produtores consigam agregar valor ao leite e transformar conhecimento em oportunidade de renda”, conclui o pesquisador.