Arte, Crônicas e Poesia
Quando falta chão
Publicado em 26/05/2026 às 13:19

Estava caminhando na orla da Lagoa, em Minas Gerais, impressionado com a alegria dos patos na água. Como ficam felizes, não sei se sentir felicidade na simplicidade, talvez, na infância, mas provavelmente nunca. Sempre que o sentimento de ausência me assaltava, no auge da alegria, ficava empacado feito uma mula.
Durante a caminhada de modo totalmente imprevisto, veio uma chuva torrencial, consegui guarida embaixo de uma arvore frondosa. Ao olhar para um galho retorcido, eu vi um ninho muito bonito, e aproximou um senhorzinho de mim também para proteger-se. Ao olha-lo logo pensei que era muita insanidade nessa idade estar todo pimpão na chuva. Ao perceber que o analisava começou a me conta que tinha 78 anos e caminhava todo dia 12 km, faziam já 22 anos que mudara completamente sua rotina de vida. Por obvio, disparou a falar e finalmente compreendi a expressão: “Falando que nem pobre na chuva”.
Ele me apontou o dedo para o mesmo galho que havia observado e me questionou sobre a fábula do passarinho amarelo. Eu disse que nunca havia ouvido. E nisso começou a fábula: haviam dois passarinhos, uma mamãe passarinho e o seu filhotinho. Chegou o dia da mãe ensinar o seu bebê passarinho a voar, o alimentou, após um pequeno descanso a mamãe o disse para ficar na borda do ninho, nisso ela o empurrou para fora.
O bebê, desesperado, iniciou a sua queda livre e a pleno pulmão piava, implorava por socorro que nunca aconteceu. Ao cair ao solo, atordoado, no silêncio absoluto, sentia apenas o “tum, tum” do coração. Ficou quietinho, cria que sua mãe viria socorre-lo. O tempo passou e nada mudou. Ao longe escutou um barulho e animou-se, enfim era uma ajuda. Era o som dos trovões e não tardou caiu uma forte tempestade.
Deitado, prostrado, o pobre passarinho conheceu a tristeza pela primeira vez na sua vida, na sua tenra idade não sabia muito bem das coisas. Apenas um sentimento inominado. A chuva aumentou e começou a ser arrastado pela correnteza, sem forças, fechou os olhos e esperou, não sabia o quê. O bebê passarinho apagou, não sabe por quanto tempo. Despertou e estava dentro de um ninho de pano. E era aquecido por uma luz, tudo era novo e misterioso. Não sentia dores nas suas asas. Ele viu uma figura completamente estranha, de barbas brancas, olhos grandes. Sentiu muito medo, todavia a cada ato de carinho foi adquirindo confiança.
Esse passarinho foi cuidado e amado até que chegou um dia que esse senhor abriu a gaiola e disse que havia chegado o momento de ser livre e que agora deveria bater as asas, e dali para diante jamais se esquecesse que quando lhe faltar chão é para saber que tem lindas asas. E principalmente mantenha seus olhos no sentido ultimo da vida: esperança.
O velhinho me olhou e disse que tinha olhar de Meursault e demorei um instante para entender a referência a Camus. E prosseguiu que até o presente momento realmente não havia encontrado um sentido para sua vida, realmente o absurdo é inexorável, mas a cada dia entendia que a direção estava na busca da verdade que o Cristo viveu nessa terra. Logo inferir que estava diante de um pregador inconveniente. Ele pareceu que percebeu meu desconforto, emendou que não estava preocupado comigo, deveria ser algo que partisse de mim, as consequências seriam sempre na minha vida.
Era para ser apenas uma caminhada, voltei para casa com a imagem e palavras do velho. Uma vida inteira, um habito, como mudar? Sinceramente são tantas questões, optei por não entrar em nenhuma, aceitar o absurdo, viver o absurdo existencial. E sobre o sentido ser Deus, certamente aquele velho sentia Deus, era sentido genuinamente. E esse é o seu maior mérito. Eu raramente vi isso, a maioria de pregadores que via e ouvia em púlpitos diziam verdades e viviam na mentira. Usavam da confusão como arma de manipulação.
E de tudo que vi e pelo pouco que sei, o tamanho do desconhecido é sempre maior.