Ondas de calor no Atlântico provocam mudanças em recifes do litoral do Espírito Santo, aponta estudo da Ufes
Publicado em 13/03/2026 às 08:46
Fotos: PELD-HCES
O aquecimento do oceano já está provocando impactos ambientais no litoral do Espírito Santo. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) aponta que ondas de calor marinhas têm alterado de forma significativa os recifes costeiros do Sudeste brasileiro, incluindo áreas do litoral capixaba.
A pesquisa foi realizada por integrantes do Grupo de Ecologia Bêntica, vinculado ao Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes, e analisou dados coletados entre dezembro de 2017 e maio de 2022 no município de Aracruz. Os resultados foram publicados no final de fevereiro na revista científica PeerJ, no artigo intitulado Marine heatwaves alter intertidal communities in the Southwestern South Atlantic (Ondas de calor marinhas alteram comunidades entre-marés no Atlântico Sul Ocidental).
Monitoramento em recife da costa capixaba
O estudo investigou como períodos de aquecimento extremo do oceano afetam comunidades intertidais — organismos que vivem na faixa entre a maré alta e a maré baixa, como algas, moluscos e crustáceos. A pesquisa foi realizada em um recife rochoso da Praia de Gramuté, área localizada em Aracruz e inserida na Área de Proteção Ambiental Costa das Algas.

A região também é monitorada pelo Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Habitats Costeiros do Espírito Santo (PELD-HCES), da Ufes. Segundo o professor e coordenador científico do estudo, Angelo Bernardino, o local foi escolhido por apresentar baixa interferência de atividades humanas, o que facilita a identificação direta dos efeitos das mudanças climáticas.
Dados de satélite e visitas mensais
A investigação combinou dados de satélites da NASA e da European Space Agency com monitoramento em campo. Durante quatro anos, pesquisadores realizaram visitas mensais ao recife para observar mudanças nas comunidades marinhas.
Ao longo do período, foram registrados 22 eventos de calor extremo no oceano. Um dos episódios mais intensos ocorreu em 2019, quando a temperatura da água permaneceu por 47 dias até 4 °C acima da média histórica.
Segundo Bernardino, os resultados indicam forte relação entre esses eventos e as mudanças observadas nos recifes.
“Nossos resultados mostram que as mudanças na cobertura das comunidades marinhas tiveram correlação superior a 80% com a ocorrência de ondas de calor, indicando que esses eventos são os principais impulsionadores das transformações nos recifes”, explicou.
A primeira autora do estudo é a pesquisadora Ana Carolina Mazzuco, que desenvolveu o trabalho durante pós-doutorado no PELD-HCES com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo. De acordo com ela, os efeitos são intensificados quando o aquecimento coincide com períodos de maré baixa, quando muitos organismos ficam expostos ao ar.
Mudança na estrutura do ecossistema
O estudo identificou impactos significativos nas chamadas “florestas” de algas marrons e vermelhas, que funcionam como abrigo e fonte de alimento para diversas espécies marinhas.
Essas algas perderam 38% da cobertura, sendo substituídas por pequenos corais e invertebrados de crescimento mais rápido. Segundo os pesquisadores, essa transformação altera o funcionamento de todo o ecossistema.
Entre as possíveis consequências estão:
- redução da produtividade costeira
- mudanças na ciclagem de nutrientes
- alterações nas cadeias alimentares marinhas
Após 2020, os cientistas observaram uma recuperação gradual das algas, porém a comunidade marinha ainda não retornou ao padrão anterior.
De acordo com Bernardino, a recuperação completa pode levar muitos anos — ou até não ocorrer — caso as ondas de calor marinhas se tornem cada vez mais frequentes.
O estudo também contou com a participação de estudantes da graduação em Oceanografia e dos programas de pós-graduação em Oceanografia Ambiental e em Biologia Animal da Ufes.
Se quiser, também posso reescrever esse texto no formato de matéria jornalística pronta para publicação (com título, subtítulo e intertítulos) — que pode facilitar se você estiver editando conteúdo, como costuma fazer.
Fonte: Ufes