Coluna Diversidade
O que o Guns N’ Roses tem a ver com inclusão?
Publicado em 10/04/2026 às 08:14

Inclusão não é checklist. É compromisso com a experiência do outro. É garantir que cada pessoa tenha condições reais de participar com dignidade, segurança e autonomia.

A chegada do Guns N’ Roses ao Espírito Santo reacende uma discussão que vai muito além da música. Grandes eventos são, ao mesmo tempo, entretenimento e teste real de cidadania. E a pergunta que se impõe é simples, mas incômoda: vamos apenas cumprir protocolo ou garantir que todas as pessoas vivam essa experiência de verdade?
O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, um arcabouço jurídico robusto. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência assegura o direito à acessibilidade em eventos culturais, esportivos e de lazer. Além disso, o país é signatário da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da Organização das Nações Unidas, que estabelece a participação plena na sociedade como um direito fundamental. As diretrizes do Governo Federal reforçam que acessibilidade vai além da estrutura física e envolve comunicação, preparo e respeito à autonomia.
Do ponto de vista legal, não há lacunas relevantes. O desafio está na execução.
Em muitos eventos, ainda predomina uma lógica de cumprimento mínimo. Há áreas reservadas, banheiros acessíveis, entradas exclusivas e, em alguns casos, transporte adaptado. Essas medidas são necessárias, mas insuficientes quando tratadas como objetivo final. Quando isso acontece, a inclusão se transforma em formalidade.
É nesse ponto que surge a diferença entre integração e inclusão.
Integração é quando a estrutura existe, mas a pessoa precisa se adaptar a ela. Inclusão é quando tudo já é pensado considerando a diversidade do público. Isso exige planejamento, treinamento e uma mudança de mentalidade: a pessoa com deficiência não pode ser tratada como exceção.
Relatos frequentes em festivais mostram que ainda estamos distantes desse modelo. Pessoas que fizeram pré-cadastro enfrentam desorganização. Outras não conseguem acessar áreas reservadas por falta de controle. Em alguns casos, esses espaços sequer são respeitados, como os banheiros. Soma-se a isso falhas de comunicação e equipes sem preparo adequado para orientar o público.
O resultado é direto: a estrutura existe, mas a experiência não se sustenta.
Esse cenário revela um problema maior. A desinformação ainda influencia decisões básicas e compromete a qualidade da execução. Sem preparo, o atendimento vira improviso. E, quando isso acontece, direitos deixam de ser garantidos na prática.
É importante reconhecer que a responsabilidade é compartilhada. Organizadores precisam planejar com seriedade e investir em capacitação. O poder público, por sua vez, deve fiscalizar com rigor e garantir que a legislação seja cumprida de forma efetiva.
Inclusão não é checklist. É compromisso com a experiência do outro. É garantir que cada pessoa tenha condições reais de participar com dignidade, segurança e autonomia.
O show do Guns N’ Roses no Espírito Santo representa uma oportunidade concreta de fazer diferente. Com planejamento, escuta ativa e equipes preparadas, é possível transformar o que hoje ainda falha em referência positiva.
No fim, não se trata apenas de acesso. Trata-se de pertencimento.
E pertencimento só existe quando a inclusão deixa de ser discurso e passa a funcionar de verdade.
Marcel Andrade Carone – Jornalista, apresentador de TV, empresário,empreendedor social comprometido com a inclusão, embaixador da Vitória Down, idealizador da “Brigada 21” e do “Pelotão 21”.
É diplomado pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG) e comendador do 38° Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro.