Arte, Crônicas e Poesia

O MELHOR JOGADOR DO BRASIL

Publicado em 03/12/2021 às 13:25

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Colunas-Montanhas2_Artes

O menino jogador do Brasil nasceu já tem quinze anos,

Viveu década e meia traçando audaciosos planos,

Já aos seis anos se fez soldado, aos sete se fez grumete,

Aos oito se fez piloto, aos nove já tinha automóvel,

Aos dez ganhava no jogo do bicho uma nota de cem reais

Aos onze com a princesa do filme casou-se

Aos treze resolveu jogador de bola fazer-se. Fez-se.

Aos quatorze era herói, lutando contra todos os fortes.

O menino jogador do Brasil nunca foi à Disney-World

Nunca tomou Milk- shake, nunca andou de avião

Nunca vestiu roupa nova, nunca teve bicicleta

Nunca entrou em carrossel, nunca nadou em piscina

Nunca vestiu a roupa branca para a primeira comunhão

Nunca foi primeiro aluno, nunca namorou com a prima.

O menino jogador do Brasil. É um menino maltrapilho

Tem quinze anos de idade. É pivete da cidade maravilhosa,

É trombadinha de ruas cariocas. É manifestante dos estádios de futebol.

Traz mal-estar aos olhares castos da sociedade, traz medo às artistas,

terror aos moços de terno:-onde se fartam os finos cidadãos da classe alta.

O menino jogador do Brasil. Bate carteira em fila, fuma maconha no morro, nunca usou desodorante, nunca escovou os dentes, não dá pra pasta, o salário do pai, operário da Avenida Brasil.

O menino jogador do Brasil. Já tem negrinha na rua. Quem é que na sua idade passou de esfregar nos muros da cidade?

O menino jogador do Brasil. Sonhava em assistir aos jogos da seleção brasileira na copa do mundo, em pleno Maracanã.

O menino maltrapilho atravessou a Avenida do Maracanã. Pondo em risco sua vida, fugindo dos guardas fardados, os que queriam se vingar de um pulso feito vazio, num esbarrão proposital derrubou o menino jogador.

O menino melhor jogador do Brasil. Bem próximo ao meio fio, escorregou.

Mãos calosas e arrogantes seguram-lhe os braços, pés calçados e compridos bateram-lhe em todo o corpo. Gritos altos e assassinos :- Ladrão! Lincha! Pega! Mata!

Ouviu-se por toda Avenida Maracanã… O menino jogador do Brasil. Estendido na avenida nua em meio os gritos da multidão que encheu o estádio de murmúrio.

O menino maltrapilho estiva de sangue o Maracanã. Ele tinha quinze anos. Cerrando as pálpebras ensangüentadas, quis ainda ouvir o grito da multidão do Maracanã :

– O melhor jogador da seleção brasileira. Seu nome seria… Rei do futebol!

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Bárbara Perez

A autora é Presidente da Academia Marataizense de Letras. É poeta e contista.

Este poema concorreu no VI Concurso de Poesia Raul Pompeia, com a poesia, O melhor Jogador do Mundo” com tema: COPA DO MUNDO, em 2014 e foi classificada em 4º lugar.

A premiação ocorreu no auditório do Sindicato de Metalúrgicos, na Verolme, em Angra dos Reis/RJ.

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Este espaço é dedicado a todos os escritores, fotógrafos, pintores, escultores e artistas da região das montanhas capixabas.
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