Morre artesão que estava em barraca incendiada em Domingos Martins e namorada critica falta de apoio

Publicado em 14/11/2020 às 15:49

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O artesão Danyel do Amaral, que estava morando há cerca de duas semanas acampado em uma barraca na Praça Domingos José Martins, a “Praça da Biquinha”, em Campinho, Domingos Martins, morreu após permanecer quatro dias hospitalizado. No último dia 5, a barraca do casal pegou fogo, e Danyel teve queimaduras graves e não resistiu.

Samara Maria Maciel Perim, namorada de Danyel, contou que eles chegaram a Domingos Martins há mais de um mês, quando tentaram alugar uma kitnet, mas ela alega que ninguém da cidade quis alugar imóvel ao casal. Segundo Samara, ela e Danyel tinham dinheiro em mãos para adiantar o primeiro pagamento. Ela tem familiares na cidade, e Danyel era natural de Minas Gerais. A mãe do jovem mora em Ilha Comprida (SP).

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“Quando eu e Danyel chegamos à cidade, ficamos dois dias na casa da minha irmã, que mora em Santa Isabel, mas a casa dela é pequena e fomos procurar algo para alugar, porque não queria incomodar ela. Pretendíamos ficar meses aqui, porque gostamos muito do lugar. Nos dias que ficamos em Campinho, conseguimos vender alguns artesanatos e tentamos alugar um local, mas todos nos negaram, mesmo os imóveis estando desocupados. Isso nos revoltou muito”, contou Samara.

Após a tentativa frustrada de alugar um imóvel, eles resolveram acampar em um espaço próximo à antiga LBA, onde hoje funcionam órgãos da Prefeitura, inclusive o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS). Após alguns dias no local, eles foram abordados pela Polícia Militar, que segundo Samara, recebeu uma denúncia de que eles estavam acampados em local que não era permitido.

“Nos falaram que era um local público, por isso ficamos acampados tranquilos e não incomodávamos ninguém. Quando os policiais chegaram, eu pedi se poderia solicitar ajuda no CRAS, para ver se alguém pudesse nos auxiliar de alguma forma. Os policiais falaram que sim e aguardaram nós irmos conversar no CRAS. Mas, para a nossa surpresa, o pessoal da assistência social não nos ajudou em nada. Eles apenas disseram que a única maneira de ajuda seria pagar a nossa passagem para sairmos do município”, lamentou a artesã.

Samara se diz revoltada com a forma em que foi tratada pela equipe da Assistência Social da Prefeitura e pelo fato de o casal não ter recebido qualquer ajuda. “Nem nos ajudar a buscar um local para alugar, eles quiseram nos auxiliar. Estávamos com dinheiro para alugar, mas ninguém fez nada. Ficamos revoltados com esse descaso. É obrigação da assistência social dos municípios amparar pessoas como nós”, relatou.

INCÊNDIO – Após a negativa de ajuda, Danyel e Samara resolveram acampar na “Praça da Biquinha”, onde ficaram por mais de duas semanas, até ocorrer o incêndio. “Queríamos ficar meses no município, e nunca negaríamos qualquer ajuda. Nossa intenção não era acampar, mas de conseguir uma moradia. Nos dias que chovia, todas as nossas coisas molhavam na barraca, e era muito transtorno”, afirmou.

Segundo Samara, no último dia 5, o casal saiu para vender artesanato na rua, e os dois retornaram para a barraca com alguns amigos, onde permaneceram conversando e bebendo socialmente. “Infelizmente, Danyel teve um surto e começou a quebrar as coisas. Ele já teve isso antes, mas não acontecia mais. Creio que o álcool foi o gatilho para essa crise. Uma amiga me chamou para eu ir dormir na casa dela, e Danyel ficou com outro amigo na barraca, que estava tentando o acalmar. No dia seguinte, eu fiquei sabendo do incêndio, mas não sei o que aconteceu”, contou.

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Danyel foi encaminhado para o Hospital Jayme dos Santos Neves, na Serra, onde permaneceu internado até a última terça-feira (10), quando ele faleceu. Samara contou que após o incêndio, ela foi para a casa da irmã. Ela disse que vai continuar fazendo seu artesanato e viajando pelo Brasil.

“Muitos amigos e moradores de Domingos Martins foram solidários e fizeram até uma campanha no Facebook para que eu pudesse comprar meus produtos para retomar a produção do meu artesanato. Recebi doações e vou continuar a minha vida”, enfatizou.

SEPULTAMENTO – A mãe do artesão Danyel, Miria Lemos de Oliveira, veio ao Espírito Santo para visitar o filho no hospital, na última segunda-feira. Após a morte do filho, Miria passou a tentar a liberação do corpo, que só foi possível ontem (13). Ela reclamou muito da falta de assistência da Prefeitura de Domingos Martins.

“A assistência social não quis nem saber se eu precisava de apoio. Não ajudaram meu filho antes e nem depois que morreu. Isso é desumano. A assistência social da minha cidade, que é Ilha Comprida, em São Paulo, que está dando todo o suporte, inclusive com o transporte do corpo do meu filho para um sepultamento digno”, disse revoltada a mãe de Danyel.

A mãe do rapaz informou que ele era conhecido em todo o Brasil, e era um artista. “Meu filho fez uma escolha de vida de fazer a arte dele e rodar pelo Brasil. Ele tem amigos espalhados por todo o Brasil. Ele vendia o artesanato para ele comer, beber e pagar as despesas. Ele não pedia nada a ninguém. Infelizmente o povo é preconceituoso. A assistência social não ajudou em nada. Estou indignada com esse descaso”, lamentou.

Na manhã deste sábado, Miria contou que o corpo de Danyel estava sendo conduzido para Ilha Comprida, onde ele será sepultado amanhã (15). “Agradeço ao meu município por toda a assistência dada a nós. Se dependesse de Domingos Martins, meu filho seria enterrado como indigente”, concluiu.

PREFEITURA NÃO RESPONDE – A reportagem do portal Montanhas Capixabas entrou em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Domingos Martins, na última quinta-feira (12), solicitando respostas às reclamações feitas pela namorada e pela mãe de Danyel. O prazo para a resposta se encerrou ao meio dia de ontem (13), mas nenhum retorno foi dado à demanda.

Em outra reportagem feita pelo portal Montanhas Capixabas, sobre o incêndio ocorrido no último dia 5, a assessoria de imprensa da Prefeitura relatou que a Secretaria Municipal de Assistência Social ofereceu ajuda, mas que o casal recusou. Entretanto, Samara contou que a única ajuda oferecida foi a passagem para os dois deixarem o município.

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