ARTE

Arte, Crônicas e Poesia

Geração de telas

Publicado em 19/01/2026 às 10:51

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Existe uma janela permanentemente aberta para o mundo, incansavelmente os olhos estão abertos para a vida alheia. Tenho ficado deverasmente atônito com tamanha sedução das telas. A sereia tem um canto que domina de um modo assustador. Nesse final de ano estive presente em uma confraternização que todos os presentes estavam atentos exclusivamente aos celulares, foram horas de profunda reflexão a observar essa cena, por que foram tão seduzidos?

A primeira observação é de que os pares não eram suficientemente interessantes para atrair atenção e o celular é o caminho mais fácil para tergiversar de qualquer pessoa. A segunda observação é que no mundo virtual não precisa de qualquer reflexão sobre o mundo real, assim como uma droga que anestesia a dor, a realidade virtual alivia os flagelos diários. A terceira observação é nutrição da inveja pela vida alheia, em um exercício comparativo de que o outro teve mais sorte e uma vida mais fácil. A quarta observação é um implicativo da anterior, à vida alheia parece ser mais divertida.

O que na prática não é todo equivocado a afirmação, quando não se conhece, enaltece, ao conhecer, desvanece qualquer brilho. Suponho ser por isso o caráter irresistível das telas, no mundo virtual o que prepondera é a aparência de verdade nela as pessoas criam sua própria imagem, demonstram o oposto do que são de modo geral. Realmente sob a luz as fissuras são mais nítidas e que aparenta ser ouro, revela-se latão. Tenho que tudo seja medo. O medo dos outros saberem o que de fato tem no coração, de conhecerem a fundo os vícios e temores, demonstrar a verdadeira face.

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Na vida sinto que estamos em constante estol, todas as situações que acreditei ser de calmaria e voo tranquilo foram ilusórias. A queda veio e me tirou completamente o equilíbrio, aqueles que entendem o caos compreende tudo que realmente importa. Porque tudo mais na vida vai derivar dessa compreensão.

E por esse prisma, não há de ser espantoso o refúgio nas telas, em certos contextos a ilusão é benéfica, viver o mundo em si não é para todos, a visão de toda aspereza e crueldade é paralisante. Por isso que na Caverna de Platão optaram por lá permanecerem, antes uma escuridão conhecida do que uma luz que cega. A luz tolerável é a das telas, que anestesia, como um ópio que afasta do encontro amargo consigo mesmo.

A incerteza é sempre ruim, por mais que seja essa a realidade da existência, a cada passo buscamos certezas vãs para prosseguirmos sem enlouquecermos. O virtual tornou-se uma fuga, não é surpresa que nesse ambiente surjam coragem, fúria e inúmeros comportamentos, no ambiente de pretenso anonimato revelam-se sem máscaras sociais.

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Única admoestação: na derradeira hora as telas são quebradas e verá a tua verdadeira face.

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