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Arte, Crônicas e Poesia

Enquanto o café esfria

Publicado em 27/07/2026 às 14:55

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Existe um charme do café na rua, sentado na cafeteria Dona, tomando um chá de capim limão. Ao olhar a fumaça subir na minha xícara, minhas memórias da vida na roça são trazidas à tona. Era um mundo pequeno, bucólico e o mais importante; previsível.

Por certo, o olhar infantil que não percebia o caos, era indiferente a ele. A vida adulta nos apresenta demandas, necessidades, enfim, apresenta a ti, oh estimado caos!

Ao observar os rostos, alguns estão alegres com seus cafés. Me chama a atenção um senhor com celular, parecia extremamente preocupado com sua xícara de café na mão. Vivemos todos assim, logo no alvorecer angustiados por demandas e necessidades, que nunca escolhemos ter, apenas nos dão ao decorrer das idades. Num momento somos amados e cuidados e no instante seguinte nos entregam boletos e somos chutados do conforto e da despreocupação.

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Um casal do meu lado começa a discutir, ela quer ter filho, ele fala que são novos ainda, parecem ter uns 35 anos. Ela segura o choro, nos olhos dela tem o fim escrito de tudo, será que ele percebeu? Ela levantou para ir ao banheiro e ele começou a mexer no celular e ao ver fotos de outras mulheres envia reações afetivas.

As pessoas estão confusas e confundindo-se mutuamente. Meu tio de forma sempre debochada chama esse fenômeno de um cego guiando o outro rumo ao abismo. Uma análise sagaz. A maioria das pessoas, mesmo sentadas e com seus cafés na mão, aparentam estar muito ansiosas, duas pessoas ao meu lado não param de mexer as pernas, a todo instante olham para seus celulares, parecem esperar uma mensagem que nunca vem.

Mais afastado tem um rapaz que está mais agitado, ao olhar para o celular, bateu duas vezes na mesa. Não tardou, pediu a conta e foi embora meneando os braços. A garçonete comentou com uma outra colega que ele havia esperado duas horas, estava animado pelo encontro e recebeu pelo celular a mensagem que a pessoa tinha esquecido do compromisso. E geralmente é assim que acontece, um pico extraordinário de ansiedade sucedido por frustração gigantesca.

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Habitualmente isso é gerado por uma falta de observação; ficamos tão focados em nós mesmos que ignoramos o obvio: a realidade. Em nossa cabeça construímos a narrativa feita, em que tudo se encaixa perfeitamente. Esse rapaz com certeza imaginou a chegada dessa pessoa milhares de vezes, ensaiou as primeiras palavras, sonhou com os olhares e beijos. E quando chegou ao encontro estava completamente apaixonado.

Aliás, a ansiedade é uma marca de nosso tempo, por ser tão normal, passa despercebido as noites de insônia, as palpitações e o pensamento constante no futuro. E somos arrastados pelas demandas da vida, os custos da sobrevivência. E a maior ansiedade que existe é da felicidade, todos que encontro estão agitados, na busca de alcançar. E alguns até mesmo já encontraram e nem perceberam, e alguns outros, nem sabe o que seja.

Levantei, e parti!

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