Coluna Diversidade
No Espírito Santo, 51 mil laudos de autismo e uma fila que a estatística não vê
Publicado em 26/10/2026 às 14:49

O Censo 2022 contou 2,4 milhões de diagnósticos no país e mais de 51 mil no estado. A conta que ninguém fez mostra quantos capixabas ainda estão fora do número, e por que a vida adulta é o capítulo mais silencioso dessa história.
Por Marcel Carone

O Censo 2022 do IBGE incluiu no questionário da amostra uma pergunta direta, se o morador já havia recebido diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista por um profissional de saúde, e a resposta revelou 2,4 milhões de pessoas no país, o equivalente a 1,2% da população. A leitura dos mesmos dados feita pelo Instituto Jones dos Santos Neves e pela APAES-ES aponta mais de 51 mil capixabas diagnosticados, dentro de um universo de 268,8 mil pessoas com algum tipo de deficiência, ou 7,2% da população do estado.
O número impressiona e corrige uma dívida histórica de informação, porque política pública sem dado é intenção. Mas o dado tem um limite que precisa ser dito em voz alta: o Censo contou laudos, não pessoas. Quem nunca conseguiu chegar até o diagnóstico não aparece na estatística, e essa ausência não é um detalhe metodológico, é o retrato de uma fila.
Por que o número de laudos cresceu
O crescimento é real e está documentado. A reportagem “A era do autismo”, publicada pela Superinteressante em setembro de 2026, mostra que a incidência saltou de 1 caso a cada 2.500 nascimentos nos anos 1970 para 1 a cada 150 nos anos 2000, chegou a 1 a cada 68 em 2010 e hoje está em 1 a cada 31 crianças nos Estados Unidos, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.
No Brasil, o Censo encontrou 1 criança diagnosticada a cada 38. Em vinte anos, o número de pessoas no espectro cresceu 500%. Jéssica Borges, presidente da Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas, a Abraça, explica que esse aumento “muitas vezes reflete pessoas finalmente sendo enxergadas”, e não um crescimento da condição em si. Ampliaram-se os critérios diagnósticos, sobretudo com o DSM-5 de 2013, melhorou o acesso à avaliação e a sociedade aprendeu a olhar.
O psiquiatra Guilherme Polanczyk, da USP, faz a ressalva honesta que todo debate público precisa ouvir: o diagnóstico é categorial, a pessoa tem ou não tem, e o volume maior também trouxe diagnósticos equivocados. A ciência acompanha o movimento. O banco de dados dos National Institutes of Health registrou 938 estudos sobre autismo publicados no mundo em 2005; no ano passado, foram 9.045.
A conta que ninguém fez
E os que não têm laudo? Aqui o Brasil não tem número oficial, e essa ausência é, em si, um dado político. O que existem são indicadores indiretos que apontam na mesma direção. A prevalência global estimada ao longo da vida gira em torno de 1%, conforme a revisão de Mandy Roy e Peter Strate publicada no Deutsches Ärzteblatt em 2023, e o CDC americano trabalha com 3,2% entre crianças. Se aplicarmos ao Brasil a mesma taxa de diagnóstico verificada na infância, 1 a cada 38, à população adulta, chegamos a uma ordem de grandeza de cerca de 4 milhões de adultos autistas.
O Censo, porém, encontrou menos de 700 mil adultos com laudo, já que apenas 28% dos diagnosticados são maiores de idade. A conta é ilustrativa e não substitui um estudo epidemiológico nacional, mas revela a dimensão do subdiagnóstico.
No Espírito Santo, a mesma lógica sugere dezenas de milhares de adultos autistas sem laudo, porque dos mais de 51 mil diagnosticados no estado a fatia adulta segue proporcionalmente pequena. Não por acaso, Meng-Chuan Lai e Simon Baron-Cohen publicaram na The Lancet Psychiatry, em 2015, um artigo que batizou de “geração perdida” justamente os adultos que atravessaram a vida inteira sem diagnóstico. E o estudo “O autismo no Estado do Espírito Santo”, do Tribunal de Contas do Estado, identificou escassez de profissionais capacitados na rede pública, com filas em neurologia pediátrica e psiquiatria pediátrica que atrasam o laudo e, com ele, o acesso aos direitos. Cada pessoa nessa fila é um autista que a estatística ainda não vê.
A vida adulta de quem nunca teve laudo
É na vida adulta que essa invisibilidade cobra a conta mais alta. Os 28% de adultos diagnosticados formam um segmento que cresce, muitas vezes porque pais e mães recebem o diagnóstico dos filhos e reconhecem em si mesmos traços que ninguém nomeou antes, como relata a reportagem da Superinteressante.
A psicóloga Tally Tafla, do Nina Lab do Instituto de Psicologia da USP, mostra o preço de décadas sem nome: a camuflagem social, o esforço diário de parecer neurotípico, está associada a ansiedade, depressão e pior qualidade de vida. Para quem recebe o laudo depois dos quarenta, o diagnóstico chega como alívio e luto ao mesmo tempo, alívio por finalmente haver explicação, luto pelo tempo perdido tentando caber em um molde que nunca foi feito para aquela pessoa.
E há um detalhe que a reportagem da Super expõe com precisão: o autismo não é um bloco único. O movimento da neurodiversidade deu visibilidade enorme ao nível 1 e 2 de suporte, aquele que fala, trabalha e reivindica lugar, e fez bem. Só que as famílias de nível 3, o chamado autismo profundo, seguem sem política pública à altura, com pessoas que precisam de acompanhamento vinte e quatro horas por dia e famílias inteiras convertidas em cuidadoras. Uma inclusão que escolhe quem é conveniente incluir não é inclusão.
O trabalho como medida da exclusão
No mercado de trabalho, o quadro é mais duro do que a maioria imagina. Audiência pública da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal,em abril de 2026, ouviu que cerca de 85% dos adultos com TEA no Brasil estão fora do mercado de trabalho. O levantamento “Mapa do autismo no Brasil”, divulgado pela Radioagência Nacional da EBC no mesmo mês, aponta que quase 30% dos entrevistados estão desempregados ou sem renda e que apenas 15% acessam terapias pelo SUS, com a maioria dependendo de plano de saúde ou da rede particular.
A literatura internacional confirma que não é um problema só nosso. O estudo alemão analisado por Roy e Strate encontrou 54% de desemprego na amostra e mortalidade 2,9 vezes maior que a da população geral, e a pesquisa de Fabian Frank e colaboradores, de 2018, mostra que o diagnóstico tardio coloca adultos qualificados em desvantagem persistente, com mais desemprego e aposentadoria precoce. O laudo, portanto, não é um papel: é a chave que abre escola com apoio, terapia, proteção social e trabalho.
O que o Espírito Santo já sabe e ainda não resolveu
O estado tem avanços que merecem reconhecimento. A Serdia, política estadual de cofinanciamento dos serviços especializados em reabilitação para deficiência intelectual e TEA, descentralizou o atendimento no SUS, e a auditoria do TCE-ES realizada em parceria com a Fundação Getulio Vargas, concluída em abril de 2026, reconheceu ampliação do acesso e propôs melhorias.
Na educação, o Espírito Santo figura entre os estados mais inclusivos do país, com crescimento das matrículas de estudantes com necessidades especiais, embora falte avaliação multidisciplinar que identifique a necessidade específica de cada aluno. O gargalo apontado pelo próprio Tribunal é de gente formada e de fila zerada, e nenhum desses dois problemas se resolve com campanha de conscientização. Resolve-se com carreira, salário, formação continuada e meta. A Lei 12.764/2012 garante que a pessoa com TEA é pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, mas direito previsto em lei só vira oportunidade real quando existe profissional disponível no dia em que a família procura.
Informação como política pública
Sobra o que nenhuma portaria resolve sozinha. Enquanto o adulto autista sem diagnóstico for tratado como excentricidade, como “jeito próprio”, como problema de caráter, ele seguirá fora das estatísticas e fora dos direitos. E aqui entra a desinformação, que não é apenas ignorância, é uma barreira concreta: a mentira de que vacina causa autismo, nascida de um estudo fraudulento de 1998 e desmentida por pesquisas com mais de 1,2 milhão de crianças, ainda circula e ainda afasta famílias do serviço de saúde.
Informação gera conhecimento, conhecimento aproxima, aproximação cria familiaridade, e familiaridade transforma cultura. Quanto mais o Brasil entende o autismo, mais fica claro, como ensina a própria reportagem da Super, que as pessoas que divergem das normas sociais não são doentes ou incapazes, e sim variações normais da humanidade. A pergunta que fica não é quantos laudos o Espírito Santo consegue emitir, e sim quantas pessoas ele está disposto a enxergar antes que a vida inteira passe.
Marcel Carone é empreendedor social e Embaixador da Inclusão reconhecido internacionalmente pelas Nações Unidas. Representou o Brasil e o Espírito Santo em Nova York, onde discursou na ONU em defesa dos direitos da pessoa com deficiência e da inclusão social. Atua na construção de políticas públicas inclusivas, no fortalecimento do Terceiro Setor e em causas como o combate à subnutrição infantil e à violência contra a mulher. É idealizador da cartilha Incluir+, guia prático voltado à atuação de vereadores na promoção da inclusão.