Arte, Crônicas e Poesia
Folhas secas por ouro
Publicado em 16/06/2026 às 09:17

As memórias da infância perduram por toda a vida, mesmo soterradas sob camadas de frustrações e devaneios. Com o passar do tempo, a existência parece nos envergar lentamente, como se adquiríssemos uma couraça de insensibilidade.
Recentemente revi um desenho animado que, quando criança, me fascinara. Narrava as peripécias de um filhote de dinossauro de pescoço longo, vivendo em comunidade. Certo dia, um forasteiro solitário surge, despertando no pequeno o desejo de partir, conhecer o mundo e viver como ele.
Movido por esse impulso, o filhote abandona o grupo. A euforia inicial, porém, logo cede lugar ao perigo: atacado por predadores, é salvo pelo pai e pelo próprio forasteiro. Após o confronto, o pai o repreende e, mais que isso, lhe ensina — a solidão não é liberdade, mas um fardo silencioso; a dor acompanha aquele que caminha sozinho. Antes de tudo, é preciso valorizar os laços enquanto existem.
Na infância, fixei-me nas emoções do pequeno. Hoje, ao recordar, percebo o quanto me aproximei do dinossauro solitário. A vida adulta, com suas tensões e relações tortuosas, muitas vezes conduz ao desejo de isolamento. Sonha-se com um lugar onde não sejamos apenas números, mais um corpo no rebanho, onde não reine a tirania do material.
Há, contudo, um conflito silencioso. Um antigo professor chamava-o de “dialética do pobre”: pobre seria todo aquele que vende seu tempo por dinheiro — como se trocasse ouro por folhas secas. O tempo é escasso; nele reside o verdadeiro valor. Ainda assim, somos constantemente instigados a buscar distinções vazias, pequenos símbolos de status que apenas disfarçam a essência.
E quando alguém ascende, deseja ser reconhecido, admirado, provar que “venceu”. Muitas vezes, o medo de retornar à pobreza supera até o temor da morte. Assim, quanto mais se apega aos bens, mais distante permanece daquilo que realmente importa.
No fim, após a escassez e as humilhações, o conforto financeiro age como morfina sobre um corpo exausto. Mas resta a pergunta: para onde ir além disso? Poucos suportam atravessar esse abismo sem vertigem. E, diante dele, não há palavras que consolem plenamente — apenas o silêncio e a consciência do peso das escolhas.
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