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Arte, Crônicas e Poesia

“Tudo o que escolhemos não ser”

Publicado em 09/06/2026 às 13:46

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A realidade de Sisifo é inexorável: acordar cedo, ir para o trabalho – de ônibus ou carro -, adentrar na empresa, trabalhar, trabalhar, até o fim do dia. Regressar para casa e no dia seguinte a mesma música e no mesmo ritmo. Até quando?

O enfadonho existencial de todo mês pagar boletos, no pêndulo da angústia de não ter e no temor de tudo perder. Considero tudo isso intrigante, no mais das vezes angustiante. Desde a primeira memória, da vida na roça, do dormir na esteira de palha, aos sete anos via nos olhos dos meus avós a preocupação latente pelo alimento diário. Apesar de na infância tudo ser incompreensível, a percepção e tristeza são sempre percebidas pelas crianças.

Eles me ensinaram, sem nada dizer, que a vida para a maioria das pessoas é bem amarga e que passarão toda a vida em busca do pão diário, nada além disso será concebido. E por mais que tudo ia mal, todas as noites a vela era acesa para sua santinha. E aos sábados a embriaguez e fúria pelas preces não atendidas. Somos todos anjos e demônios!

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Entretanto, não são os vales que mais me assustam, são os cumes das montanhas, ou no mineirês, os altos dos morros. A abundância tende a estimular os excessos, a memória parece que é deletada e o prazer é buscado a qualquer custo. E depois que ascendeu, ao ser expulso do morro e descer rolando, a dor é gigantesca. É um fenômeno curioso, ao invés de ter gratidão por tudo que viveu e experimentou, adquire-se é ódio e rancor por não ter mais nada.

Na época que morava com meu avô, tinha um vizinho que era super agradável e alegre, vivia uma vida humilde, mas nunca lhe faltou nada. Ele recebeu uma herança de um tio distante e mudou para cidade com a família. Tinha esposa e três filhas.

Decorreu uns sete meses e o vizinho voltou, sozinho, ficou recluso em sua casa, o pouco que eu o vi, transformou-se em uma pessoa rancorosa e extremamente desagradável com todos. Eu nada compreendia, soube que ele tinha ficado muito rico, comprou carros de luxo e começou a beber muito, fazia festas constantes para os novos amigos. Envolveu-se com outras mulheres e sua esposa e filhas foram embora. E depois que perdeu tudo, voltou para sua casa na roça, pelo menos o corpo.

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De tudo que vi, pouco que aprendi na existência, as certezas são muito perigosas, principalmente as de sucesso e glória. Compreendi finalmente a oração de Edmond Danté: “Conservai-me a memória, Pai.” 

Ao final, o que nos resta é a história que escrevemos diariamente, creio que no derradeiro minuto será nos entregue um livro em poderemos ver tudo que realizamos e uma pequena nota de rodapé; tudo que deveríamos ter sido e escolhemos não ter sido. E no epitáfio estará escrito; viveu o que se propôs a viver.

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