ARTE

Arte, Crônicas e Poesia

Antes da Experiência

Publicado em 30/04/2026 às 09:58

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O silêncio não silencia a angústia que está no coração. Não que a vida vá mal, já esteve pior, muito pior, depois da fome, frio e abandono. Tudo após isso parecem coisas menores, sangra menos. Por isso a memória é importante, um grande quadro de aviso: já passou por isso.

Apesar que a antiga experiência é apenas um aviso, pois são novos tempos e principalmente uma nova pessoa a enfrentar os obstáculos. Muitas vezes, na ignorância da adolescência considerava-me mais forte, crente de ser capaz de mudar o mundo, imparável. Todavia a velhice parece nos acovardar, os conselhos de vó são relembrados: “Não toma gelado”, “cobre os peitos”, “protege a garganta”, “cuidado com sereno,” etc.

A vontade de transformação total é justamente metamorfoseada no pavor de mudanças. Desde as mais factuais como a mudança de clima. Ao andar de ônibus após uma noite fria é o assunto predileto dos mais velhos, fazem a comparação com anos anteriores e relatam dores diversas no corpo.

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Durante as observações diárias me intriga o excesso de movimento e barulhos difusos, carros, ônibus, caminhões, em uma espécie de corrida maluca. Todos com afã de chegarem e irem embora, existe um intuito? Um sentido?

Honestamente não consigo ver nada além da sobrevivência, sou inclusive um rato nessa corrida insana, nada de distinto ou melhor que os demais em volta…

O que tenho constatado no mais das vezes que essa corrida só é paralisada por aflições médicas, ao entrar a doença tudo mais perde a relevância. Em visita a um amigo no hospital, vê-lo sobre a cama, cheio de aparelhos ligados no seu corpo, rememorei todas as nossas aventuras, noites sem dormir nas festas, jogos de baralho e muitas manhãs de ressaca. Como tudo passou rápido!

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Revisitamos algumas histórias e buscamos rir um pouco. Ele era tão atribulado, todo ano tinha como missão trocar de carros, comprar imóveis, ficava maravilhado quando via o extrato bancário cada vez maior, me ligava eufórico para contar. E estava lutando para respirar e viver, me falou que buscaria ficar perto da família, descansar e cuidar melhor do corpo e mente.

Após a saída do hospital e convalescência, pareceu um novo homem, todos o chamaram de monge devido a austeridade que adotou para si. Roupas simples, fala curta e objetiva. Entretanto isso durou uns dois meses, primeiro as roupas, depois o jeito de expressar, por fim voltou a ser o que sempre foi.

E como ele, somos todos nós, ficamos mais velhos antes de ficarmos experientes. E a maioria partirá tão incauta quanto chegou.

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