Acidentes em rodovias das montanhas capixabas matam 226 em três anos

Publicado em 05/10/2025 às 16:12

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Texto: Bruno Caetano / Fotos: Arquivo/MC

“Meu marido tinha acabado de se tornar pai. Nossa filha tinha dois meses. Quando recebi a notícia, foi um choque. De repente, você tem sua família completa e no outro dia precisa aprender a se virar sozinha com um bebê”. O relato é de Laiane Pereira da Silva, esposa de Erick, motociclista morto em 11 de setembro de 2024, na BR-262, em Marechal Floriano. Erick seguia de moto quando colidiu com uma Doblo, foi arremessado para a pista contrária e atingido por um caminhão. O impacto foi fatal e imediato.

A tragédia de Erick não é um caso isolado. Ela se soma a um retrato de violência viária que vem deixando famílias destruídas nas montanhas capixabas. Segundo dados do Observatório de Trânsito do Espírito Santo, entre 2023 e agosto de 2025, a região serrana registrou 4.240 acidentes de trânsito. Desses, 226 resultaram em morte.

Mas para as famílias atingidas, esse número não é apenas uma estatística, ele carrega a dor de vidas interrompidas, sonhos desfeitos e lares devastados pelo luto. Além disso, as estradas da região, que fazem parte da rotina de muitos moradores e turistas, agora são recordadas como cenários de tragédias

Quem está em risco

Em 2023, foram 81 vítimas fatais. No ano seguinte, o número manteve-se praticamente estável, com 80 mortes. Já em 2025, até agosto, 65 vidas haviam sido perdidas. A curva de fatalidades segue alta e sem sinais de queda consistente, evidenciando um problema crônico na região.

A dor de Laiane ilustra a estatística mais cruel: motociclistas são o grupo mais vulnerável, representando 46,9% das ocorrências. Em seguida vêm os automóveis, com 33,6%, e os caminhões, com 10,6%. Outros tipos de veículo: motonetas, bicicletas, caminhão-trator, caminhonete, ônibus e registros sem informação, somam 8,9%.

Não à toa as rodovias das montanhas são palco das maiores tragédias. Só a BR-262, uma das principais ligações entre o Espírito Santo e Minas Gerais, responde por 58 mortes. A ES-165, que cruza Castelo e Vargem Alta, soma 24. Já a ES-164 aparece com 15 vítimas. Em comum, trechos íngremes, curvas fechadas e tráfego intenso.

A distribuição por municípios reforça a dimensão do problema. Domingos Martins lidera, com 50 mortes, seguido por Venda Nova do Imigrante (30) e Castelo (28). Afonso Cláudio (27) e Vargem Alta (25) também figuram entre os mais letais. Alfredo Chaves aparece na base da lista, com 8 vítimas.

O tipo de ocorrência mais frequente é a colisão (120 casos), seguida de tombamentos (42), choques (30) e atropelamentos de pedestres (18). Capotamentos e colisões frontais, embora menos comuns, estão entre os mais letais.

Fiscalização e prevenção

O chefe da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Viana, Marcel Picoli Haase, explica que os acidentes graves na região serrana resultam de uma combinação de fatores: falhas humanas, infraestrutura viária e condições meteorológicas. “Não é apenas erro humano ou condição da estrada. Na maioria das vezes, é a combinação de excesso de velocidade, curvas sinuosas, pista molhada e veículos em mau estado de conservação que resulta em tragédia”, afirmou.

Entre as principais causas, a PRF destaca excesso de velocidade em descidas e curvas, ultrapassagens proibidas e imprudência somada à falta de manutenção dos veículos, como pneus carecas, freios desregulados e faróis inoperantes. Fatores climáticos, como chuva e neblina, tornam os trechos montanhosos ainda mais perigosos, enquanto fadiga e sono ao volante aparecem com frequência nos registros da corporação.

Para reduzir os riscos, a PRF promove operações integradas, especialmente em períodos de maior movimento, como feriados. A Operação “2 Rodas”, realizada na BR-262 entre Venda Nova do Imigrante e Ibatiba, flagrou motociclistas em ultrapassagens proibidas, veículos em mau estado e motoristas com CNH vencida. 

“A orientação da corporação é clara: respeitar limites de velocidade, evitar ultrapassagens arriscadas, manter a manutenção preventiva e nunca dirigir sob efeito de álcool ou drogas. “Pequenas atitudes podem salvar vidas. A responsabilidade está nas mãos de cada condutor”, concluiu Marcel.

Diante do elevado número de acidentes e mortes nas rodovias da Região Serrana, o 5º Comando de Polícia Ostensiva Regional (5º CPOR), da Polícia Militar, também intensificou suas ações de fiscalização e prevenção. O objetivo é garantir melhores condições de circulação e verificar a regularidade da habilitação dos condutores, fatores que impactam diretamente na segurança viária.

Segundo a corporação, a atenção maior tem sido voltada para cidades com maior fluxo de veículos, como Santa Teresa, Santa Maria de Jetibá, Venda Nova do Imigrante e Ibatiba. Somente nos últimos cinco meses, foram realizadas 285 operações “Cavalo de Aço”, 348 operações de trânsito em geral e 2.530 cercos táticos, resultando em milhares de abordagens a veículos e condutores.

Além da fiscalização ostensiva, o 5º CPOR também atua na prevenção. Palestras educativas são ministradas em escolas, principalmente para estudantes do terceiro ano do ensino médio, alertando sobre os riscos de conduzir sem habilitação e as consequências de acidentes. Nos finais de semana, quando festas e eventos aumentam o tráfego, o policiamento é reforçado nas saídas, coibindo a direção sob efeito de álcool. Dessa forma, a corporação busca não apenas punir, mas conscientizar a população sobre a importância da segurança no trânsito.

Caminhos para redução dos acidentes 

De acordo com o capitão Anthony, do Observatório Nacional de Segurança Viária, a maioria esmagadora dos acidentes fatais está relacionada ao comportamento humano. “Mais de 90% dos sinistros resultam de condutas de risco: beber e dirigir, exceder a velocidade, usar celular, forçar ultrapassagens. A ausência de fiscalização reforça a sensação de impunidade”, destacou.

Segundo ele, reduzir a violência no trânsito exige medidas combinadas: infraestrutura adequada, duplicação de pistas, melhoria da iluminação e sinalização, além de fiscalização presencial e tecnológica. No entanto, nenhuma dessas estratégias será duradoura sem investimento consistente em educação. “Não se trata de campanhas pontuais. Educação para o trânsito desde a infância, com valores de cidadania aplicados no dia a dia, é essencial”, reforçou.

Anthony também defende a integração entre municípios, órgãos de trânsito e sociedade civil. Prefeituras podem planejar políticas públicas de mobilidade; órgãos de fiscalização podem aplicar tecnologia e campanhas permanentes; e a sociedade civil pode se mobilizar, cobrar e participar ativamente. “É a soma de esforços que vai mudar essa realidade. Quando todos assumem responsabilidade, o trânsito se torna mais seguro para todos”, concluiu.

Enquanto essas mudanças não avançam, famílias como a de Laiane convivem com a ausência irreparável. “Quando vejo carros em alta velocidade nessa rodovia, sinto medo. O que peço é que as pessoas se coloquem no lugar do próximo. A vida vale muito; tem gente esperando você chegar em casa”, disse ela.

Semana Nacional de Trânsito 

Durante os dias 18 e 25 de setembro, o Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran|ES) iniciou uma campanha com o objetivo de incentivar a sociedade para um trânsito seguro. Nesse período, foram realizadas ações para conscientizar todos os envolvidos no dia a dia do trânsito, sejam eles motoristas, passageiros, motociclistas, ciclistas ou pedestres. 

Uma das ações, junto com a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia de Delitos de Trânsito (DDT), realizou a operação ‘Jogo da Vida’, em municípios do Estado. O foco foi a fiscalização de condutores que deixam a região de bares depois da transmissão dos jogos de futebol e assumem a direção do veículo após o consumo de bebidas alcoólicas. 

“Essa operação integrada de agentes de trânsito do Detran com a Polícia Civil busca prevenir e preservar vidas no trânsito, combatendo o uso de bebida combinada com direção”, reforçou o delegado da Delegacia de Delitos de Trânsito, Joel Lyrio.  

A mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida” foi escolhida pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para ser utilizada nas campanhas educativas dos órgãos de trânsito de todo o País em 2025.

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