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Arte, Crônicas e Poesia

Vão em pé, amontoadas e sorridentes

Publicado em 28/01/2026 às 10:05

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As pessoas sempre têm a si mesmas em contas diversas das demais, geralmente em patamar mais elevado. Qualquer conversa se torna um discurso e reafirmação de vaidade.

Na seara digital, onde muitos consideram-se doutores em tudo e escrevem textos enormes de profundo vazio e punhado de ideias vagas e furtadas alhures. Nos encontros físicos não é incomum verdadeiros monólogos sobre a moral, política e virtude. Ficar em silêncio está cada vez mais raro e pouco admirado.

No alvorecer faço viagens de ônibus, na ida ao trabalho, fico admirado como algumas pessoas estão tão felizes, expansivas, contentes pelo acordar e respirar, uma gratidão pelo simples. Não possuem grandes sonhos, anseiam apenas por vencer o dia e que não ocorra nenhum fato adverso na ida e na volta. Vão em pé, amontoadas e sorridentes.

Será esse o caminho ideal para a vida? Esvaziar o coração de aflições e viver grato por cada minucia?

De modo contumaz me vejo debruçado sobre isso, tateando no escuro por respostas, em busca de um mapa para a certeza. Talvez esteja errado em agir assim e deveria buscar ser mais contemplativo, aprender a ter o olhar mais puro. O coração ficou anos inflado por tanta angustia e frustração, parece acostumado, mesmo que   constantemente vai pigando mais gotas de fel sobre si, a cada dia mais e mais…

A rotina parece ser alentadora, vagar de boleto em boleto é um esteio para muitas existências, ao questionar algumas pessoas no ônibus, a resposta foi a mesma: “Tenho muitas contas, vivo para paga-las”. Não responderam com hipérbole por acaso, de fato os dias, os meses, são divididos entre trabalho, ligeiro descanso e pagamentos, em perene looping.

A subsistência é óbvia e real, todavia, questiono se é o sentido uno de toda existência, não obstante a visão fica presa nas latas vazias na dispensa, no pavor de não ter moradia e principalmente de depender do quinhão do próximo, que no mais das vezes é cruel na caridade ao exigir contrapartidas.

Ao fim, o que resta é viver, certos do sofrer, certos do morrer, vivamos!

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