Arte, Crônicas e Poesia
Timoneiro
Publicado em 11/01/2026 às 10:58

A cabeça conspira, o coração pira e a mão fica estropiada. Vi isso em um bar na Bahia, os adágios populares são ricos de uma sabedoria profunda. Realmente tudo começa na consciência, cria formas, caminhos e cores. Após isso, a deliberação torna-se sentimento e, por fim, a execução de tudo.
Dessarte, mudar a si mesmo é um desafio complexo, vejo bem o abismo que há em mim e pouco compreendo. Exatamente como São Paulo descreveu, tudo posso, mas nem tudo me convém. A mente é sempre inquieta e tudo anseia e muito lhe escapa, apesar da ilusão de certeza e cálculo antecipado.
Conheci um homem de resiliência inestimável, ele tinha o sonho de ter um rancho, com barco e cisnes à porta de casa. Fez contas e planejamento financeiro para isso. O racional aliado ao emocional, em um grande dia surgiu uma parceria com o poder público, o sonho poderia ser alcançado. Não titubeou, enfim a felicidade havia chegado. Todavia, algo inédito surgiu na negociação, não teve seu rancho e viu seu casamento ruir e seus filhos ingressarem nas drogas. E esse homem continua lutando atrás do seu sonho, mesmo ferido, segue crendo, admirável!
A consciência também ilude, suspeito que é como se viéssemos ao mundo com um quebra cabeça para montarmos, entretanto, com peças faltando e por mais que consigamos juntar, nunca teremos uma visão completa da imagem. E o pior é ter orgulho de êxito e compreensão de algo que está além do que somos. Alguns durante a existência despertam, outros tantos voltam pior do que entraram na vida. Uma das razões, é que conseguem passar toda uma vida de forma confortável, despreocupados com qualquer coisa indiferente a seu microcosmo.
Por curiosidade, se pudesse escolher um modo de viver, o que escolheria? Por meu turno, nunca tive momentos de calmaria, o mar durante toda a vida esteve agitado, quando achei que estava em águas tranquilas me deparei completamente perdido. Não era calmaria, era silêncio de Deus comigo.
É difícil buscar explicações, por mais que inócuas sejam, o coração angustiado anseia apenas por paz e não por palavras vazias. Entretanto, somos sempre induzidos a busca de porquês e para quês, sendo que no mais das vezes não temos capacidade de compreensão e outrora ausência de siso. Ao ir em um funeral de um pai que velava seu filho, durante o cumprimento ele me questionou o sentido de tanta dor e o porquê da inversão dos pais enterrarem os filhos. Realmente não tinha resposta imediata, apenas recordei que esse filho havia sido abandonado, passou fome, teve que mudar de Estado para ter uma condição digna. Certamente a dor que vi era oriunda da culpa.
Infelizmente muitas vezes a consciência vem já sem tempo de correção, resta apenas seguir quebrado pela vida afora…
Devemos confiar no timoneiro, por mais que faça silêncio sobre o destino, devemos crer antes de ver e compreender que o mutismo muitas vezes é oriundo da nossa própria surdez espiritual.