Sobram empregos nas montanhas e salários podem passar de R$ 5 mil

Publicado em 22/06/2022 às 09:07

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Texto e fotos: Julio Huber

Atualmente, mais de 11 milhões de brasileiros estão sem trabalho, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), divulgados no mês de maio. Com frequência, reportagens mostram filas de pessoas em busca de emprego. Mas, essa não é a realidade nos municípios da Região Serrana do Espírito Santo.

No setor de turismo, os empresários já não sabem mais o que fazer para conseguirem suprir a necessidade de funcionários, nas mais diversas áreas, como cozinheiros, recepcionistas, garçons/garçonetes, ajudantes de cozinha, camareiras, jardineiros e até pedreiros e ajudantes. Os salários variam de R$ 1.300,00 a mais de R$ 5 mil.

E um dos principais motivos pela falta de candidatos aos postos de trabalho é principalmente pelo desinteresse em trabalhar aos finais de semana, quando a demanda do setor é ainda maior. Em 15 estabelecimentos consultados pelo jornal O Noticiário e pelo portal Montanhas Capixabas, há quase 100 vagas de trabalho.

E é por isso que no restaurante Casa Chef Ari, que fica em Pedra Azul, Domingos Martins, 11 funcionários foram trazidos do Nordeste. O chef e proprietário, Ari Cardoso, que há 10 anos veio da Paraíba e se estabeleceu nas montanhas do Estado, precisou apelar aos seus conterrâneos para manter aberto o seu restaurante, já que a mão de obra local é escassa.

“Nossa casa tem três anos, e começamos com equipe reduzida. Mas, criamos uma identidade gastronômica nas montanhas e tivemos que aumentar nossa equipe. Foi quando nos deparamos com uma falta de mão de obra. E se buscarmos mão de obra especializada, aí não existe mesmo. Hoje, se tiver 50 funcionários, eu consigo colocação em meu negócio e em negócios de amigos, que também passam por esse mesmo problema”, relatou.

Diante dessa situação, Ari custeou a viagem de profissionais de Pernambuco, Alagoas e da Paraíba. “Eu gostaria de ter todos os colaboradores da cidade que adotei de coração, que é Domingos Martins, mas já corri o risco de abrir o restaurante sem funcionários. Por isso tive que trazer profissionais do Nordeste. O custo é maior, mas eu tenho a segurança de abrir meu restaurante com a equipe completa”, relatou.

No Bioparque das Aves, em Soído de Cima, Domingos Martins, 12 funcionários são da Grande Vitória. Uma das proprietárias do Bioparque, Maria Antonia Salomão, contou que além dos salários, a empresa paga todos os custos de transporte, hospedagem e alimentação desses funcionários que atuam aos finais de semana.

Um dos principais empregadores da região no setor de turismo é o Hotel Fazenda China Park, em Domingos Martins. Hoje, a demanda para contratação imediata é de 27 pessoas, entre camareiras, cozinheiros(as), ajudante de cozinha, garçons/garçonetes, recepcionista, pedreiros e ajudantes de pedreiros. Os salários partem de R$ 1.300,00.

Valdeir Nunes, que é diretor do China Park e presidente do Conselho Curador do Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau (MCCVB) – entidade que é a instância de governança da região de montanhas -, afirmou que um dos principais gargalos é trabalhadores para os finais de semana.

“Muitos querem trabalhar, mas não aos sábados e domingos. Quem trabalha aos fins de semana, tem as folgas durante a semana, como determina a lei, mas eles não querem. Aparecem pessoas sem qualificação, e mesmo assim contratamos, mas muitos não ficam. E esse problema aumentou muito nos últimos anos”, contou.

Sócia-proprietária do tradicional Restaurante Fritz Frida, de Campinho, sede de Domingos Martins, Michele Miler Koehler disse que precisou fechar o segundo andar do restaurante por fala de mão de obra. Ela conta que o restaurante chegou a ter 19 funcionários em épocas de maior movimento, mas hoje conta com apenas oito, sendo que necessitaria de pelo menos mais cinco.

Na Pousada e Restaurante Lusitânia, em Pedra Azul, Domingos Martins, a proprietária Luiza Delarmelina disse que atualmente necessita de pelo menos 12 funcionários, cinco para contratos fixos e sete para atuar aos finais de semana. “Infelizmente não conseguimos contratar ninguém da região. Muitos não querem trabalhar aos finais de semana”, lamenta.

Custo alto de vida não atrai trabalhadores de fora

Foto: O chef Ronaldo Guedes aponta que a demanda aumentou com novos empreendimentos na região

O chef Ronaldo Guedes, proprietário do Restaurante Italiano, em Soído de Cima, Domingos Martins, que funciona há 25 anos no município, acredita que o surgimento de muitos empreendimentos turísticos nos últimos anos fez com que a demanda crescesse muito. Por outro lado, ele também destaca que interessados de outros municípios reclamam do custo de vida elevado para se manterem na região, o que dificulta morar próximo ao trabalho.

“Além desse desenvolvimento no setor de turismo na região, também temos duas grandes empresas e a Prefeitura que empregam muitas pessoas, e isso reduz também a oferta de funcionários. Por outro lado, a região não progrediu em número de residências com alugueis compatíveis para que pessoas de fora venham trabalhar e morar aqui”, disse.

Proprietário do restaurante Peterle, em Pedra Azul, Domingos Martins, Ozébio Peterle, também fala do alto custo de vida na região como um fator que prejudica a vinda de trabalhadores de outras cidades. “A demanda de trabalhadores é grande, mas quem quer trabalhar, não consegue pagar os alugueis altos. Falta moradia, e nossa região está crescendo cada vez mais”, argumenta.

O garçom Lucas Alves, que mora na região e trabalha em estabelecimentos locais, disse que o custo de vida para quem vem de fora é um fator que impede que muitos trabalhadores permaneçam na região. “O aluguel é caro, e isso quando encontra um apartamento para alugar. Muitas vezes a pessoa vem de fora, trabalha alguns dias e não volta, pois o que recebem não dá para cobrir os custos e ainda sobrar”, comentou.

Salários atrativos e benefícios não são suficientes para manter funcionários

O chef Ari Cardoso destacou que todos os seus funcionários possuem carteira assinada, e ele ajuda inclusive com custos de moradia. “Os salários que eu pago variam de R$ 1,5 mil a R$ 5,5 mil, além de benefícios como plano de saúde e odontológico”, informou.

O chef Ari Cardoso teve que contratar 11 funcionários do Nordeste para suprir a demanda de seu restaurante

Devido a essa falta de mão de obra, as diárias de freelancer, que são profissionais contratados para trabalharem apenas nos dias de maior movimento, são maiores que na Grande Vitória, onde varia de R$ 60 a R$ 90,00, em média. Nas montanhas, esses valores podem chegar a R$ 200,00.

Na pousada Chez Domaine, em Aracê, Domingos Martins, onde também funciona o Restaurante Apogeu, todos os funcionários também possuem carteira assinada. Segundo a diretora administrativa e financeira e chef Isabelle Cicatelli, muitos pedem para trabalharem sem carteira assinada, para não perderem benefícios do governo.

“Aqui em nossa região ainda temos que competir com a colheita do café e o plantio do tomate, somado aos benefícios sociais, que são importantes, mas para quem precisa mesmo. Hoje nos deparamos com várias pessoas que não querem que assine a carteira para não perder os benefícios. Muitos efetivamente não assinam carteira de trabalho. No entanto, nossos conceitos e ética não nos permitem não assinar a carteira do trabalhador”, acrescentou.

Falta de interesse por qualificação profissional

Além da oferta de trabalho, também há oferta de cursos de qualificação gratuitos na região, promovidos por diversas entidades, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), de Venda Nova do Imigrante. Apesar de haver inúmeros cursos voltados ao setor hoteleiro e gastronômico, muitas vezes não há turmas de alunos.

O chef Ari Cardoso destacou que a qualificação é outro grande problema do setor. “A minha nora é professora de confeitaria do Senac, e há quatro meses não forma turma para o curso gratuito. As pessoas não querem se qualificar, mas muitas vezes quem contrata também não exige essa qualificação, já que não há mão de obra suficiente”, enfatizou.

Isabelle Cicatelli, da pousada Chez Domaine e do restaurante Apogeu, também destaca a falta de qualificação. “A falta de qualificação é endêmica. Quando iniciamos esse tipo de discussão o relato é o mesmo: o Brasil sofre com esse despreparo”, lamenta.

Gerente do Hotel Fazenda China Park, Vânia Santos também relata sobre a falta de qualificação. “Estamos em uma situação de carência tão grande, que contratamos até quem não tem experiência. Damos o treinamento para quem quer aprender e também para quem possui disponibilidade para trabalhar aos fins de semana, o que muitas vezes é o maior problema. Precisamos de pessoas com disponibilidade e vontade de trabalhar”, apela.

CURSOS GRATUITOS NA REGIÃO

Senac de Venda Nova do Imigrante

  • Auxiliar de cozinha – Aulas entre 05 de julho e 30 de novembro, de segunda a quarta-feira, das 13h às 17h
  • Salgadeiro – Aulas entre 07 de julho e 06 de outubro, às quintas e sextas-feiras, das 13h às 17h

Inscrições gratuitas: (28) (28) 3546-8750 ou www.es.senac.br

Qualificar ES

Inscrições: Secretarias Municipais de Turismo

  • Afonso Cláudio – Técnicas de Guiamento em Atrativos Naturais
  • Alfredo Chaves – Técnicas de Guiamento em Atrativos Naturais
  • Castelo – Técnicas de Guiamento em Atrativos Naturais e Bem receber o Turista
  • Conceição do Castelo – Bem receber o Turista
  • Domingos Martins – Camareira (técnicas de limpeza e arrumação) e Garçom (tipos de serviços em restaurantes)
  • Laranja da Terra – Técnicas de Guiamento em Atrativos Naturais
  • Marechal Floriano – Bem receber o Turista e Cozinha Italiana
  • Vargem Alta – Barista (preparo e serviço de café)
  • Venda Nova do Imigrante – Barista (preparo e serviço de café)

Envie seu currículo

Buscando auxiliar os empresários da região na busca por contratações, o Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau (MCCVB) criou um e-mail exclusivo para o envio de currículos. Os interessados em uma das vagas de emprego podem enviar um e-mail para: [email protected]

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