A grama do vizinho

Anaximandro Amorim , 18 Maio 2017

A grama do vizinho

Tempos atrás, li um texto, desses mesmos de internet, que começava dizendo que “a grama do vizinho sempre parece mais verde que a nossa”. Não sou muito chegado a clichês, mas, recém-formado e desempregado na época, vendo tanta gente conseguir furar o cerco do mercado de trabalho antes de mim, comecei a pensar se não era verdade. Até que o tempo passou e eu também furei esse cerco. Hoje, pouco mais de uma década depois, ainda sinto, às vezes, como o jardim do outro parece mais bonito que o meu.

Não sei por quê. Acontece. Mas você, leitor, pode dizer: como assim? Um rapaz jovem, que faz o que gosta, tem família, parece ter tudo o que queria na vida (e tem!)... Pois é. Deve ser porque é meio difícil não olhar para o jardim alheio quando todo mundo quer mostrar quão verdejante é a grama do seu. Canais para isso, nós temos. A todo tempo, passamos uma imagem de um jardim bem cuidado. Mas, antes de mostrar o nosso verdor exterior, nunca paramos para pensar no quanto de ervas daninhas, pragas e outras coisas tivemos de retirar do nosso gramado. A felicidade parece banal. Barata.

Digo isso porque esses dias, fiquei mal. Acontece. Eu também sou humano e posso me dar o direito de ter algumas tristezas. Meu jardim, sempre tão verde aos olhos dos outros, de uma hora para a outra, ficou cinza para mim. E, mesmo com tanta coisa, tudo parecia perder sentido face ao gramado sempre verde das redes sociais. O meu jardim, porém, estava lá. Verdíssimo aos olhos dos outros. Tudo uma questão de ponto de vista. Vale só esconder as ervas daninhas. E que não me venham com problemas. Meu jardim não pode ser contaminado pelo seu.

Há, no entanto, quem esteja sempre cinza – e faça questão de mostrar isso o tempo todo. É como se houvesse um movimento contrário a esse de uma esfuziante felicidade. Mas, no fundo, é como se ele também quisesse capitalizar as mesmas atenções. Acho perigoso, no entanto, querer mostrar apenas o cinza da vida. Parece-me um grito de socorro às avessas, levando em consideração que rede social é o local do individualismo por excelência. Certamente, são essas pessoas as que menos deveriam ver a grama do outro. Ou, talvez, nem queiram! Quem sabe a ideia não seja só mostrar o cinza do seu jardim, mesmo?

Minha tristeza, felizmente, passou. Meu jardim continuou lá, do jeito que sempre foi. Para mim, ele voltou a ficar verde. Mas, durante esse tempo de pragas e ervas daninhas, percebi que não adianta olhar para a grama do outro. Nem pedir ajuda para tornar a nossa mais verde. Estamos todos preocupados em mostrar o jardim mais belo possível. Temos nossos altos e baixos, mesmo quando temos um emprego, um cobertor quente e uma maratona de séries para assistir. Numa época em que felicidade só faltava ser vendida em gôndola, talvez fosse a hora de mostrar menos e curtir mais. Afinal, melhor do que regar o jardim para o outro, é deitar na própria grama.

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