O fim da linha para uma das principais ferrovias do Estado

Publicado em 18/09/2022 às 13:04

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Texto: Julio Huber / Fotos: Elabore e Divulgação

Os trilhos que testemunharam a história e o progresso de vários municípios das regiões de montanhas e do Sul do Estado, hoje são vítimas do descaso e do abandono, conforme estampou em matéria de capa o jornal O Noticiário. Desativada há quase cinco anos, o trecho capixaba da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) está passando pelos piores momentos desde a sua construção, que iniciou em 1892 e foi finalizada até Cachoeiro de Itapemirim em 1910.

Durante décadas de funcionamento, essa era a principal ligação de municípios do Sul e da Região Serrana até Vitória, quando eram transportadas pessoas e cargas diversas. Os eucaliptos produzidos nas montanhas foram os últimos produtos de grande volume que foram transportados pelos trilhos, que hoje estão abandonados e estão sendo inclusive furtados.

Diante do total abandono da estrada de ferro, prefeitos e representantes dos municípios que são cortados pela ferrovia já se reuniram no Ministério da Infraestrutura (Minfra), em Brasília, e agora devem ingressar com uma ação judicial em conjunto, por meio da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), solicitando que o governo federal passe às Prefeituras a concessão dos trilhos e de todos os imóveis pertencentes à ferrovia.

“Queremos que o Governo Federal defina se haverá uma utilidade para esse trecho ou se podemos usar esses espaços e os imóveis que estão abandonados”, destacou o vice-prefeito de Marechal Floriano, João Cabral Rodrigues Canceglieri.

Além de Marechal Floriano, a ferrovia também corta os seguintes municípios: Vila Velha, Cariacica, Viana, Domingos Martins, Alfredo Chaves, Vargem Alta, Cachoeiro de Itapemirim, Muqui, Mimoso do Sul e Atílio Vivacqua.

Em muitos trechos da malha férrea há árvores caídas, matagais que invadiram os trilhos e barreiras que interditam totalmente a ferrovia. Além disso, segundo o vice-prefeito Cabral, há deterioração de pontilhões e de outras estruturas, desmoronamento em alguns trechos, além de furtos de dormentes e de partes dos trilhos.

“Há muitos imóveis da ferrovia que estão se perdendo porque não recebem manutenção. Se for passado para o município, podemos usar para abrigar órgãos da Prefeitura. Além disso, alguns locais nos permitirão ampliar estacionamentos e até construir praças. Mas, tudo deve ser discutido com a comunidade”, disse João Cabral.

Na última terça-feira (13), representantes jurídicos dos municípios se reuniram na sede da Amunes. O objetivo do encontro foi coletar informações, discutir estratégias e definir os próximos passos e ações junto a órgãos fiscalizadores e judiciais.

O prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Victor Coelho, informou que foi protocolado, em julho deste ano, no Ministério de Infraestrutura, o pedido de cessão do domínio das vias férreas para os municípios cortados pela ferrovia.

Segundo ele, atualmente o município não dá manutenção na malha ferroviária, visto ainda não ter a posse do município linha férrea, mas realiza limpeza, poda e capina na área onde passam as linhas. O prefeito, que também é presidente da Amunes, destacou que está se buscando um caminho conjunto para resolver a atual situação da ferrovia.

“Estamos utilizando outro caminho para alcançar a municipalização dos trechos das linhas férreas. A abordagem, nesse caso, foi solicitar a doação das linhas para o estado do Espírito Santo, e, posteriormente, os trechos poderiam ser municipalizados e administrados por cada município. Outro caminho que vislumbramos é os municípios entrarem com medidas judiciais, individualmente, mas com apoio da Amunes, requerendo a doação dos trechos que hoje se encontram abandonados dentro do perímetro de cada município”, informou o prefeito Victor Coelho.

TURISMO – No ano de 2009, foi dado início ao projeto turístico Trem das Montanhas. Importante atrativo turístico do Estado, o passeio era feito em uma locomotiva moderna e saía de Viana e ia até Matilde, em Alfredo Chaves, em um percurso de 60 quilômetros, passando por Domingos Martins e Marechal Floriano.

Entretanto, o passeio parou de funcionar em 2015. Desde então, e com a paralisação do transporte de cargas, no ano de 2017, os trens deixaram de percorrer a estrada de ferro, dando lugar ao abandono. Representantes de algumas prefeituras disseram que têm interesse em utilizar alguns trechos para o turismo, como é o caso de Domingos Martins.

“Nossa intenção, se a ferrovia passar para os municípios, é restaurar a estação e a casa de turma para utilizarmos como atrativos turísticos. Queremos fazer um chamamento público para que alguma empresa possa utilizar os locais para a comercialização de produtos do agroturismo e até de uma cafeteria, e também possa explorar o trecho da Pedra dos Ventos, onde é muito praticado o rapel, mas que atualmente está em risco”, contou a secretária interina de Cultura e Turismo de Domingos Martins, Dulciele Stein Suela Bonela.

Ela informou que atualmente o município não pode realizar intervenções na ferrovia, pelo fato de a mesma estar sendo administrada por uma empresa privada. A Prefeitura de Alfredo Chaves também não está dando manutenção no trecho que atravessa o município, a não ser ao redor da estação de Matilde, local bastante visitado por turistas.

A vice-prefeita de Alfredo Chaves, Jane Bettcher, afirmou que o município tem interesse em usar turisticamente o trecho. “Alguns municípios fazem o movimento para que depois da doação possam tirar os trilhos de dentro da cidade, mas nós pretendemos destinar os trilhos para fins turísticos”, garantiu.

Em Cachoeiro de Itapemirim, o prefeito Victor Coelho informou que com a doação ao município, a intenção é fomentar a constituição e implantação de um terminal de cargas, visando o atendimento do futuro distrito industrial de Morro Grande, além de incentivar o turismo nas estações e pontos de caminhadas entre Soturno até a divisa de Vargem Alta.

“Temos também interesse em promover a multimodalidade do transporte de cargas originadas no município e na região Sul do Estado para interligação a futuros projetos ferroviários, como a ferrovia Vitória X Rio”, destacou.

Bandidos furtam trilhos para vender a R$ 1,00 o quilo

Os trilhos estão sendo furtados e vendidos a siderurgias

Além do abandono, em alguns locais os trilhos estão sendo furtados e vendidos para o ferro velho ou para usinas, ao preço de R$ 1,00 o quilo. No início do ano, a Polícia Militar apreendeu um caminhão que transportava cerca de 15 toneladas de trilhos que haviam sido furtados no Sul do Estado, principalmente entre Vargem Alta e Cachoeiro de Itapemirim.

Na ocasião, os policiais confirmaram que havia vários pedaços da linha férrea cortados por um maçarico na carroceria do caminhão, em Atílio Vivácqua. O engenheiro agrônomo e comerciante Paulo Henrique Thiengo, de Cachoeiro de Itapemirim, é um defensor da linha férrea, e lamenta a atual situação.

“Com planejamento e boa vontade esses trilhos poderiam ter sido usados para o transporte coletivo, tipo os veículos leves sobre trilhos (VLT’s) e os bondes modernos, a exemplo do que acontece em várias cidades do Brasil e muitos países mundo afora”, pontua.

Ele disse que pelo menos 30 quilômetros de trilhos já foram arrancados para serem vendidos para o ferro velho. “O material é comprado por ferros velhos, escondidos em tambores metálicos de 200 litros e vendidos para grandes siderúrgicas”, denuncia.

No último dia 1º, o dono de um ferro-velho em Cachoeiro de Itapemirim foi preso pelo crime de receptação, pois estava com 10 toneladas de trilhos. Parte do material estava sendo preparado para levar para uma siderurgia no Rio de Janeiro.

Em uma propriedade rural do mesmo município, os policiais civis encontraram outras cinco toneladas de trilhos furtados, já cortados e prontos para a venda, além de diversos dormentes.

Amigos se unem para limpar os trilhos

Um grupo de amigos se une para limpar trechos abandonados da ferrovia

Enquanto uns furtam e depredam o que ainda resta da ferrovia, outros se unem para preservar. É o caso de Raphael Santuchi, que junto com um grupo de amigos, está limpando um trecho da estrada de ferro na Serra de Soturno, em Vargem Alta.

Ele inclusive tem uma campanha na internet para quem quiser contribuir com os custos para a compra de gasolina e de produtos para eliminar o mato que avança sobre os trilhos. Raphael contou que o grupo já limpou pelo menos sete quilômetros de ferrovia nos últimos meses.

“Vamos aos fins de semana e levamos ferramentas e carrinhos de mão para roçar e desobstruir alguns trechos. É triste ver a ferrovia abandonada, sendo que ela fez parte da história e do desenvolvimento do Estado. Hoje ainda poderia servir para o transporte de cargas e para o turismo”, disse. Quem quiser doar algum valor e ajudar o grupo, o endereço da vakinha on-line é: www.vakinha.com.br/vaquinha/manutencao-da-ferrovia-abandonada.

Concessionária VLI quer renovar o contrato por mais 30 anos

Mesmo diante das precárias situações em que a ferrovia se encontra, a assessoria de imprensa da concessionária VLI Multimodal S.A, atual responsável pela operação da estrada de ferro que corta o Espírito Santo, informou que está em andamento a prorrogação antecipada do contrato – que vence em 2026 – por mais 30 anos.

Questionada sobre o motivo do abandono da ferrovia, a VLI informou que “o serviço de limpeza, controle da vegetação e saneamento vegetal é realizado periodicamente e que destina uma equipe de manutenção para monitoramento da faixa domínio da linha férrea. Esclarece ainda que seus ativos são monitorados em tempo integral. Quando constatadas ocorrências de furto de trilhos, as polícias Militar e Civil são acionadas para que seja feita a devida investigação, visando a recuperação dos bens subtraídos e a responsabilização judicial dos responsáveis”.

Sobre o movimento dos municípios de requisitarem a malha férrea, a empresa disse que as ferrovias são bens da União e, portanto, cabe a ela tal definição. O jornal O Noticiário questionou a VLI se há interesse em utilizar a malha férrea. A empresa respondeu que, o trecho em questão está sob análise no processo de prorrogação, e que neste momento está sendo conduzido pela Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT).

Já a assessoria de imprensa do Ministério da Infraestrutura informou que a FCA discute com o Governo Federal a devolução do seu trecho capixaba, entre a divisa com Rio de Janeiro e Argolas, em Vila Velha, no âmbito do processo de prorrogação antecipada.

Segundo a assessoria, não há qualquer previsão para retorno da operação ferroviária nesta malha. “A cessão do uso dos imóveis provisoriamente para outras finalidades pode ser realizada por meio de contrato específico entre a concessionária e o interessado, desde que não haja a descaracterização física desses bens, mantendo-os aptos ao uso originalmente concebido”, destacou a assessoria do Ministério.  

Entretanto, para o uso, é necessária a autorização do órgão regulador – no caso, a ANTT -. Sobre a solicitação da Amunes de o Governo Federal passar a ferrovia aos municípios, a assessoria informou que o Ministério da Infraestrutura discute com ANTT e concessionária a viabilidade do pedido, visto que os bens estão em processo de devolução.

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