Juiz de Fora: desastre reflete negligência com aquecimento global

Publicado em 26/02/2026 às 08:26

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira deixaram pelo menos 47 mortos, cerca de 3 mil desabrigados e 400 desalojados, principalmente em Juiz de Fora e Ubá. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a tragédia é resultado da combinação entre mudanças climáticas e falhas no planejamento urbano e na gestão ambiental.

“Quando estamos falando de extremos, de riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas”, afirmou o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo ele, eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes e intensos.

Felippe avalia que a prevenção passa pela adoção de políticas públicas consistentes na área ambiental, incluindo planejamento urbano. Para o pesquisador, houve negligência nos últimos anos, tanto no Brasil quanto em outros países, com a pauta climática sendo tratada por parte do meio político como entrave ao desenvolvimento econômico. “Essa falsa contraposição continua sendo usada como ativo na disputa eleitoral”, analisou.

O especialista também chama atenção para a dinâmica do mercado imobiliário, que, segundo ele, influencia a ocupação das cidades. Com isso, populações de menor renda acabam concentradas em áreas mais suscetíveis a deslizamentos e inundações. Em Juiz de Fora, os bairros mais atingidos são justamente os mais pobres, onde a capacidade de recuperação após o desastre é menor.

As áreas de risco, segundo Felippe, já são conhecidas pelo poder público. No entanto, medidas de mitigação esbarram na falta de recursos. Levantamento do jornal O Globo, com base em dados do Portal da Transparência, aponta que o orçamento da Defesa Civil estadual caiu de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025, período do segundo mandato do governador Romeu Zema. O governo de Minas Gerais não comentou os dados.

Além de investimentos estruturais, o professor defende ações de conscientização e treinamento da população para situações de emergência. “É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, afirmou.

De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Juiz de Fora está entre os municípios com maior proporção de moradores em áreas de risco. Em um único dia, a cidade registrou quase todo o volume de chuva previsto para fevereiro. Os impactos foram concentrados em bairros como Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier.

A geografia da região contribui para a vulnerabilidade. Situada em área montanhosa, Juiz de Fora recebe umidade vinda do mar. Com o aquecimento do Oceano Atlântico — cerca de 3 graus Celsius acima do normal na costa, segundo o Cemaden — há maior evaporação e concentração de umidade no ar. Ao encontrar as montanhas, essa umidade se transforma em chuvas intensas.

“O Oceano Atlântico está muito mais quente do que o normal, e isso aumenta a quantidade de umidade disponível”, explicou Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden. Para ele, o aquecimento global está diretamente relacionado ao aumento desses eventos extremos. “Esse é um preço que pagamos pelas decisões tomadas no passado”, avaliou.

Diante desse cenário, Seluchi defende a adaptação das cidades e a retirada preventiva de moradores em caso de alertas, além do controle da expansão urbana em áreas de risco.

Pensando na resiliência urbana, o professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta alternativas de engenharia para reduzir os impactos das cheias. Ele lembra que Juiz de Fora cresceu a partir do vale do Rio Paraibuna e avançou para as encostas, o que aumenta a suscetibilidade a inundações e deslizamentos.

Entre as soluções possíveis, Martins cita a construção de pôlderes — áreas isoladas por muros com uso de bombas para retirada gradual da água — e a criação de parques em regiões de várzea, além de medidas para ampliar a permeabilidade do solo urbano.

Segundo o Ministério das Cidades, o governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas em Juiz de Fora entre 2024 e 2025, por meio do Novo PAC, dos quais R$ 1,2 milhão já foram liberados. Para obras de drenagem urbana, está previsto um repasse de R$ 356 milhões dentro do projeto Juiz de Fora + 100, que contempla bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata.

Para os especialistas, a tragédia reforça a necessidade de integrar políticas ambientais, planejamento urbano e ações de adaptação climática, sob pena de novos desastres atingirem, principalmente, as populações mais vulneráveis.

Fonte: Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil

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