Importação de morango do Egito ameaça produção capixaba e mobiliza debate na Ales
Publicado em 18/03/2026 às 13:19
Participantes relataram queda nas vendas, concorrência desigual e risco social no campo / Foto: Heloisa Mendonça Ribeiro
A Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa do Espírito Santo discutiu, nesta terça-feira (17), os impactos da importação de morango do Egito sobre a produção local. A reunião, realizada no Plenário Dirceu Cardoso, reuniu parlamentares, representantes do governo, produtores rurais, além de secretários municipais e vereadores, que relataram prejuízos, perda de mercado e risco à subsistência de milhares de famílias.
Na abertura, o presidente da comissão, Adilson Espindula, destacou a gravidade da situação, especialmente para a Região Serrana. Segundo ele, a produção de morango vai além da economia, sendo uma tradição familiar no Estado. No entanto, o aumento das importações — principalmente do Egito — tem gerado concorrência considerada desigual.
Dados apresentados pelo parlamentar indicam que o Brasil passou de pouco mais de 4 mil toneladas importadas em 2022 para cerca de 42 mil toneladas no último ano. Além disso, o custo de produção local, entre R$ 15 e R$ 16 por quilo, contrasta com o produto importado, que chega ao país por cerca de R$ 8. Nos últimos 12 meses, os custos para os produtores capixabas ainda subiram aproximadamente 15%.
Espindula também ressaltou a relevância do setor no Espírito Santo, quarto maior produtor nacional, com mais de mil propriedades envolvidas, produção anual de cerca de 33 mil toneladas e geração de aproximadamente R$ 400 milhões em renda.
Durante o encontro, o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, confirmou o avanço das importações. Segundo ele, o volume chegou a cerca de 44 mil toneladas em 2025, sendo aproximadamente 40 mil provenientes do Egito — número que já supera a produção capixaba.
Bergoli explicou que acordos comerciais firmados ao longo dos anos reduziram significativamente as tarifas de importação, atualmente em torno de 4%, favorecendo a entrada do produto estrangeiro. Ele destacou ainda que o morango egípcio, geralmente congelado e com boa aparência, tem ganhado espaço principalmente na indústria devido ao menor custo.
Representando produtores de São João do Garrafão, o empresário Adair José Graciano relatou queda de até 50% no mercado de morango congelado em apenas um ano. Segundo ele, o cenário atual inviabiliza a comercialização, com preços abaixo do custo de produção e impacto direto sobre famílias que dependem da atividade.
O impacto social também foi destacado no debate. Em municípios como Santa Maria de Jetibá, cerca de 800 famílias vivem da cultura do morango. Já em Domingos Martins, a atividade é uma das principais fontes de renda rural, hoje ameaçada pela preferência da indústria pelo produto importado.
Diante do cenário, autoridades locais alertaram para o risco de crise econômica em comunidades inteiras caso não haja intervenção.
Ao final da reunião, foram definidos encaminhamentos para enfrentar a situação, como a solicitação de apoio do governo estadual aos produtores, a elaboração de um documento para o governo federal, a mobilização da bancada capixaba em Brasília e a defesa de medidas como aumento de tarifas, criação de cotas e revisão de acordos comerciais. Também foi proposta a ampliação da assistência técnica para reduzir os custos de produção.
Representantes do Ministério da Agricultura afirmaram que eventuais mudanças nas regras de importação dependem do Ministério da Indústria e Comércio, mas se colocaram à disposição para colaborar.
O presidente da comissão reforçou que o tema seguirá como prioridade no Legislativo estadual, destacando a importância de garantir equilíbrio no mercado e proteger a produção capixaba.
Fonte: Ales
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