Florestas em regeneração ajudam a preservar milhões de anos de evolução na Mata Atlântica
Publicado em 06/03/2026 às 13:26
Foto: Alba Lívia Tallon Bozi
Florestas da Mata Atlântica que voltam a crescer após o abandono de áreas desmatadas podem recuperar grande parte da diversidade evolutiva do bioma. Estudo publicado no dia 3 de março, na revista científica Biological Conservation, mostra que, ao longo do tempo, essas florestas em regeneração passam a abrigar uma variedade crescente de linhagens de árvores — contribuindo para preservar milhões de anos de história evolutiva.
A pesquisa, liderada pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), analisou comunidades de árvores em 79 áreas de Mata Atlântica no sudeste do Brasil, incluindo 61 florestas secundárias — que surgiram após o abandono de áreas desmatadas — e 18 florestas maduras, primárias ou com, pelo menos, mais de um século de regeneração. Ao todo, os pesquisadores registraram cerca de 6.400 árvores pertencentes a 637 espécies, distribuídas em 75 famílias botânicas.

Os resultados mostram que, conforme as florestas secundárias envelhecem, ocorre um aumento significativo tanto no número de espécies quanto na diversidade filogenética — uma medida que considera as relações evolutivas entre as espécies. No início da regeneração, essas florestas apresentam apenas uma fração da diversidade evolutiva encontrada em florestas maduras, mas essa diferença diminui progressivamente ao longo das décadas de sucessão. Após cerca de 80 anos de regeneração natural, as florestas secundárias podem alcançar aproximadamente 95% da diversidade filogenética observada em florestas antigas.

Apesar dessa recuperação, os pesquisadores também identificaram lacunas importantes. Algumas linhagens raras e evolutivamente distintas — especialmente dentro da ordem botânica Malpighiales, que engloba cerca de 40 famílias e mais de 16 mil espécies — foram registradas apenas em florestas maduras, o que reforça o papel insubstituível desses remanescentes mais antigos para a conservação da biodiversidade.
Quando analisadas em conjunto com as florestas maduras, as florestas em regeneração contribuem para ampliar o conjunto de linhagens evolutivas presentes na região. “Isso significa que a combinação de diferentes estágios de floresta conserva mais diversidade evolutiva do que qualquer um deles isoladamente”, destaca Alex Coelho, pesquisador do INMA que liderou o estudo.

Esse resultado tem implicações importantes para políticas de conservação e restauração ecológica na Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos e ameaçados do planeta. “Nossos resultados mostram que florestas em regeneração podem recuperar uma grande parte da história evolutiva da Mata Atlântica ao longo do tempo. Mas também revelam que as florestas maduras continuam sendo insubstituíveis. Para conservar plenamente essa diversidade, precisamos proteger os remanescentes antigos e, ao mesmo tempo, valorizar as florestas secundárias que estão se recuperando na paisagem”, afirma.
Os autores destacam ainda que a regeneração natural pode ser uma estratégia eficiente e relativamente barata para restaurar a biodiversidade em paisagens degradadas, especialmente quando existem remanescentes florestais próximos que funcionam como fontes de sementes.
Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de estratégias de conservação que considerem mosaicos de diferentes tipos de floresta, combinando áreas maduras com florestas em regeneração. Esse tipo de abordagem pode ajudar a preservar não apenas o número de espécies, mas também a riqueza de linhagens evolutivas que sustenta o funcionamento dos ecossistemas tropicais.
Fonte: INMA