Embaixador do Irã diz que população pressiona governo a rejeitar negociações com os EUA

Publicado em 31/03/2026 às 14:31

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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, afirmou nesta segunda-feira (30) que a população iraniana tem pressionado o governo a não confiar em novas promessas de negociação feitas pelos Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o diplomata declarou que o presidente norte-americano, Donald Trump, “negocia consigo mesmo” e classificou como uma “piada mundial” a suposta tentativa de diálogo entre os dois países.

Segundo Ghadiri, o sentimento nas ruas do Irã é de desconfiança diante das sucessivas investidas diplomáticas acompanhadas de ameaças militares.

“A opinião pública no Irã está pressionando seriamente o governo iraniano e o instando a não se deixar enganar pelas negociações da outra parte”, afirmou.

Trump voltou a declarar recentemente que haveria tratativas com um suposto “novo regime” no Irã, ao mesmo tempo em que renovou ameaças de ataques contra infraestruturas de energia e petróleo, caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz.

Após a morte do líder supremo Ali Khamenei, em fevereiro, seu filho Seyyed Mojtaba Khamenei assumiu o comando da estrutura de poder iraniana, que reúne o Executivo, o Parlamento, o Judiciário e o Conselho dos Guardiões.

Durante a entrevista, o embaixador também contestou a classificação de grupos como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen, como “proxies” do Irã, termo usado para designar organizações que atuariam em nome de outro Estado.

“Não devemos aceitar o ciclo guerra-negociação-guerra”

Ao comentar a possibilidade de cessar-fogo, Ghadiri afirmou que o Irã não pretende aceitar o que chamou de “circuito” imposto por seus adversários: guerra, cessar-fogo, negociação e, em seguida, nova guerra.

Segundo ele, isso teria ocorrido em dois momentos recentes, inclusive durante negociações mediadas por Omã.

“Essas duas guerras mostram que o outro lado busca um círculo composto por guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra. Não devemos aceitar essa lógica”, disse.

O diplomata afirmou ainda que, diante do que classificou como “agressão criminosa”, o Irã entende que precisa responder para impedir a repetição de ataques.

Embaixador afirma que ataques iranianos causaram danos a Israel

Questionado sobre os impactos militares dos ataques iranianos a Israel, Ghadiri afirmou que, de acordo com informações do governo iraniano, o país tem causado “danos significativos” ao que chamou de “regime sionista”.

Ele declarou que as ações militares do Irã seguem critérios “humanos, morais e religiosos”, e comparou o atual conflito à guerra travada contra o Iraque de Saddam Hussein, entre 1980 e 1988.

Segundo o embaixador, mesmo tendo sofrido ataques com armas químicas naquele período, o Irã não autorizou retaliação com o mesmo tipo de armamento.

“Respondemos de forma controlada. Mas nossas respostas são poderosas e danificam muito o inimigo”, afirmou.

Universidades e cientistas entre os alvos

Ao comentar os ataques de EUA e Israel contra universidades iranianas, sob a alegação de uso para fins militares, Ghadiri classificou a ação como um ataque à ciência e à produção de conhecimento.

O diplomata ressaltou a tradição acadêmica do Irã e citou a Universidade de Jondishapur, considerada por ele uma das mais antigas referências de ensino superior do mundo.

“As ações cegas militares do regime sionista colocam entre seus alvos residências civis, universidades, fábricas e infraestruturas civis”, disse.

Ele também afirmou que Israel tem um histórico de perseguição e assassinato de professores e cientistas ao longo das últimas décadas.

“O povo permanece nas ruas”, diz diplomata

Sobre a situação interna do Irã após um mês de guerra, o embaixador afirmou que, ao contrário do que esperavam os adversários do país, não houve colapso político ou social.

Segundo ele, a resposta da população tem sido de mobilização e defesa da soberania nacional.

“Durante esse tempo, as pessoas estão sob chuva, neve, com frio. O povo permanece nas ruas e defende fortemente a soberania”, declarou.

Ghadiri também destacou que o Irã convive há décadas com sanções econômicas e pressões externas, e que isso teria fortalecido a resiliência do país.

“A civilização iraniana é muito enraizada. Nossas raízes têm 7 mil anos. Essa árvore poderosa pode se mover com ventos muito fortes, mas ainda permanece intacta e firme”, afirmou.

Embaixador elogia cobertura brasileira, mas critica editorial

Ao avaliar a cobertura da imprensa brasileira sobre o conflito, Ghadiri agradeceu aos veículos que, segundo ele, têm mostrado “o lado verdadeiro da guerra”.

Por outro lado, criticou o editorial “Ninguém vai chorar pelo Irã”, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, classificando o texto como uma postura “não profissional”.

Segundo ele, esse tipo de posicionamento contribui para justificar ataques contra civis e ainda teria negado ao Irã o direito de resposta.

Irã rejeita que grupos aliados sejam “proxies”

Na parte final da entrevista, o embaixador rejeitou a interpretação de que grupos armados e movimentos aliados atuem como representantes do Irã.

Para ele, organizações como o Hezbollah, grupos da resistência no Iraque, os Houthis, no Iêmen, e grupos palestinos agem em defesa de seus próprios interesses nacionais.

“Precisamos investigar se os EUA são proxy do regime sionista ou o regime sionista é o proxy dos EUA”, afirmou.

Ao citar o caso do Hezbollah, Ghadiri lembrou a invasão israelense ao Líbano nos anos 1980 como fator de origem do grupo. Já no caso do Iraque, apontou a invasão norte-americana de 2003 como elemento de mobilização da resistência local.

Sobre a Palestina, afirmou que os grupos atuam em resposta à ocupação de seus territórios.

“Os palestinos estão lutando pela sua população, pelo seu país. Eles não estão lutando por uma outra entidade”, concluiu.

Fonte: Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil

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