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Arte, Crônicas e Poesia

Como saber tudo?

Publicado em 02/05/2023 às 14:04

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Hoje em dia temos que saber de tudo e ser tudo, menos nós mesmos. A vida coletiva impõe que sejamos versões adequadas e moldadas a cada situação. O sucesso e aceitação estão nesses pilares. Fico observando que desde novos queremos ser igual a todo mundo que nos cerca, a aceitação do outro é uma premissa da própria felicidade.

Na minha infância ouvia que “quem anda com porcos, farelo se come”, advertência muito comum das mães. De um lado esse sábio conselho e do outro o desejo de ser incluído nas conversas, nos encontros, ter o sentimento de pertencimento. E desse sentimento inocente e ordinário, surgem marcas indeléveis na vida.

Certo menino que queria ser aceito pelo grupo, matou aula para estar com a turma, atrás dos muros do colégio aceitou o convite de fumar um cigarro. Depois da tosse inicial, a cabeça levemente tonta, estava iniciado. O que era esporádico vira hábito. Não mais assistia às aulas, já se sentindo homem, em casa ficava apenas no seu quarto, senhor do seu próprio castelo. A mãe tentava conversar, mas na cabeça do menino a voz era apenas um ruído distante.

Não importava o que a mãe fazia, os sacrifícios que realizava para ter as coisas dentro de casa, as humilhações que vivia para poder colocar alimento dentro de casa. O menino abria os armários, outrora a geladeira, sempre a procura do que não tinha. Se tivesse com maçãs, reclamava de não ter peras, se todavia tivesse peras, reclamava de não ter maçãs.

Não demorou muito e esse menino largou a escola, para ele já sabia de tudo que precisava saber. Do cigarro, experimentou as bebidas, gostou, era “adulto”, tudo poderia fazer. Passava o dia na casa dos colegas, assim como ele, eram rebeldes e desafiavam o poder estabelecido. Logo constatou que precisava de dinheiro para as bebidas, para o cigarro e, principalmente, ter coisas que causavam inveja nos demais. Era preciso se destacar de alguma forma.

A pobre mãe já não tinha mais o que entregar, o menino percebeu que precisava de mais, junto com os colegas resolveram furtar coisas no mercado e vender. Logo viu que o retorno era pequeno. Um colega conhecia alguém que pagava uma grana boa para fazer algumas entregas. Na primeira entrega o menino se deu bem, comprou um cordão de prata e tênis. Finalmente achou uma maneira de se dar bem!

Dentro de casa já não aceitava ninguém falar nada, sua certeza bastava. Roupas novas, relógios, celulares, etc. A mãe já imaginando tudo disse em prantos para o filho: “prefiro enterrar um filho do que ir na cadeia te ver”. O temor da mãe logo se cumpriu, foi acordada pela vizinha gritando que o filho tinha sido preso.

Desesperada, correu para a delegacia e descobriu que o seu menino tinha sido preso com drogas, por ser ainda menino ela o trouxe para casa. Falou, falou, gritou, o menino impassível ficou. O susto não foi suficiente para impedir que continuasse. O prazer de ter as coisas e de ser exaltado pelos colegas e pelas meninas valia a pena. Não demorou muito e logo foi preso novamente, dessa vez a mãe não conseguiu liberá-lo.

A mãe em desespero pediu ajuda de amigos que pagaram advogado para soltar o filho. No dia que foi solto, o menino jurou para a mãe que iria mudar de vida, mas ao final da noite os amigos ligaram, a mãe implorou para que ele não saísse. Não adiantou as súplicas, ele foi ver sua turma. A mãe, ao ver o filho saindo pela porta, já com receio dele voltar para prisão, sucumbiu de um infarto fulminante. Foi encontrada pelos vizinhos pela manhã. O menino só ficou sabendo na noite seguinte ao voltar para casa. E no velório da mãe viu-se o silêncio da culpa e a lágrima da vergonha.

O que poderia ter sido feito de diferente? O que você tem feito para ser aceito pelas pessoas?

Essa história acima, verídica, acontece em muitas casas, mas não necessariamente tem esse fim trágico, mas encontra-se em demasia um silêncio indiferente ao invés de um afeto admirado. Um fenômeno curioso é perceptível, mesmo nos grotões longevos vê o apego da tela artificial superar o olho no olho. Quando foi que conversou olhando nos olhos e de forma absoluta prestando atenção no seu interlocutor?

Eu recordo que na minha infância, não que seja tão velho assim, tínhamos o hábito de contar histórias de fantasmas, passava muitas noites em claro após ouvir, lembro que tinha uma comunicação bem mais eficiente, haja vista o impacto que causava em mim. Hoje a história tem que durar 30 segundos para ser consumida inteiramente, a necessidade de falar cada vez mais rápido reduziram as figuras de linguagem ao pó.

Obviamente que não cabe saudosismo, jamais existiu uma época de ouro, somos humanos e sempre tem algum aspecto para aperfeiçoar, todavia, diante de tantos problemas de relacionamento e comunicação, mister é recomeçar do zero.

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