Caso Dayse: deputados atribuem feminicídio ao machismo estrutural

Publicado em 24/03/2026 às 10:00

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Minuto de silêncio simboliza pesar do plenário por mais um crime brutal contra mulheres / Foto: Lucas S. Costa

Com sentimento de indignação e consternação, vários deputados repercutiram em sessão plenária o crime de feminicídio contra Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória, ocorrido na madrugada desta segunda-feira (23), cujo suspeito é o namorado da vítima, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza.

A vítima era conhecida por diversos parlamentares. Fábio Duarte (Rede), Capitão Assumção (PL), Mazinho dos Anjos (MDB) e João Coser (PT) destacaram a profissional de liderança e dedicação nas funções que ocupou.

A procuradora especial da Mulher da Assembleia Legislativa (Ales), deputada Iriny Lopes (PT), repudiou mais um ato de feminicídio “que mancha, macula, nosso estado e nossa capital” e criticou o machismo da sociedade.

“Estamos todos os dias falando desse machismo estrutural e contra essa mortalidade infinita de mulheres. Ela morreu porque era mulher e porque a pessoa que a matou achava que tinha sobre ela o controle total. Não a respeitava como um ser autônomo, independente. Quem disse que somos propriedades de alguém? Quem disse que nós temos que fazer o que os homens mandam? Quem disse que nós temos que obedecer o desejo de mentes perversas, cruéis?”, indagou Iriny.

Falando pela Mesa Diretora, o presidente Marcelo Santos (União) lamentou a violência contra a mulher que ainda insiste em acontecer. “Há um machismo entranhado dentro de uma maioria de homens que fala que a mulher tem que estar onde ela quiser, mas ele comete violência doméstica, seja física ou moral, ou agressiva com palavras, ou o que aconteceu ontem”.

Fotos da sessão

O deputado Denninho Silva (União) lembrou que a comandante sempre colaborou com os debates de segurança pública na Ales. “Era uma pessoa presente, esteve aqui na Assembleia diversas vezes para debater o melhor para o Espírito Santo”.

Já a deputada Janete de Sá (PSB) destacou que a capital do ES estava há mais de 650 dias sem registros de feminicídio, número quebrado com “essa covardia”. A parlamentar citou que o ES já registrou 17 mulheres assassinadas em 2026, sendo 4 casos de feminicídio.

“Uma mulher jovem, bonita, talentosa, competente, que quebrou um paradigma ao comandar em Vitória a Guarda Municipal. Nem mesmo todas essas características da Dayse fizeram que ela se livrasse do feminicídio, do poder de um homem que achava que era o dono dela e não aceitava a separação”, afirmou Janete.

A deputada Camila Valadão (Psol) cobrou maior enfrentamento estatal do problema. “Inúmeros episódios que demonstram que nós mulheres não temos um dia de paz. (…) Essa sociedade está cansada de chorar e não ter medidas para enfrentar esse quadro”.

“São todos os dias mulheres sendo mortas neste país. Quatro mulheres morrem por dia em nosso país e é mulher em todos os lugares, inclusive mulheres na segurança pública. O caso da Dayse, além de nos deixar bastante tristes, ele é uma demonstração que mesmo mulheres que ocupam lugares de liderança não estão isentas de serem vítimas”, alertou.

Também solicitando um minuto de silêncio, os deputados Sergio Meneguelli, Alexandre Xambinho e Delegado Danilo Bahiense (PL) lamentaram a partida precoce de mais uma mulher vítima de um crime brutal.

Apoio psicológico

Após os diversos pedidos de minuto de silêncio em homenagem à comandante assassinada, o presidente Marcelo Santos destacou a urgente demanda de o poder público olhar para a saúde mental das forças policiais.

“Não adianta só comprar equipamento, só comprar fardamento, claro que a busca salarial é importante e isso tem que ter. Mas se a gente não tratar da saúde mental, o número elevado, o crescimento da violência e o crime organizado (…), Estado paralelo, que tem prejudicado muito a saúde mental”, refletiu.

“Nós precisamos ter um olhar diferenciado com políticas públicas que efetivamente alcance a mulher, a proteção à vida dela, esse machismo absurdo, escondido dentro de muitos homens, mas também temos que ter uma assistência importante, psíquica e social, para esses homens e mulheres que integram as forças policiais”, concluiu o deputado.

Comunicações

Na fase dedicada a discursos, os deputados Iriny Lopes e Delegado Danilo Bahiense retomaram o assunto com mais tempo na tribuna. Iriny tocou no assunto levantado pelo presidente anteriormente – acompanhamento psicológico – e refletiu que a Lei Maria da Penha prevê tal acompanhamento para agressores que efetivamente querem ser tratados, que de fato assumem não ter comportamentos normais. Mas para Iriny, é preciso estar alerta ao machismo estrutural.

“O que está estruturado só muda se essa estrutura cair e em seu lugar for construída uma nova. (…) Não vamos esquecer que o feminicídio é o último ato de uma cadeia de agressão que começa com agressão verbal, que passa pela psicológica, que passa pela patrimonial e passa pelo isolamento dessas mulheres. Passa sobretudo sobre o medo permanente”, citou a deputada.

Já o deputado Delegado Danilo Bahiense cobrou ação, afinal “o feminicídio não aceita omissão” e segue fazendo “vidas interrompidas, histórias destruídas e famílias que jamais serão as mesmas”.

Bahiense lembrou que Dayse já foi homenageada duas vezes na Ales, sendo a última em novembro de 2023, em sessão solene que homenageou, com a Medalha Delegada Zoraydes Izabel Duboc, mulheres que combatem a violência doméstica.

“Uma mulher que dedicava sua trajetória à proteção da sociedade, uma mãe que deixa uma filha de apenas 7 anos, uma profissional da segurança pública que ainda assim não conseguiu escapar da violência (…). Não é um fato isolado, mas que escancara uma realidade cruel no Espírito Santo”, disse Bahiense.

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