Assembleia debate papel dos homens no enfrentamento à violência contra a mulher
Publicado em 27/03/2026 às 08:41
Foto: Kamyla Passos
O papel dos homens no enfrentamento às raízes estruturais da violência contra a mulher foi o centro das rodas de conversa realizadas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), nesta quinta-feira (26). Com o tema “Todos por todas: pela garantia da vida de meninas e mulheres”, o encontro buscou sensibilizar e provocar reflexões sobre comportamentos masculinos que ajudam a perpetuar a violência de gênero.
A abertura contou com a presença da ministra das Mulheres do governo federal, Márcia Helena Carvalho Lopes, que destacou a necessidade de a sociedade compreender a base estrutural, cultural e prática da violência machista e misógina.
Segundo ela, esse tipo de violência afeta toda a sociedade.
“A juventude, segundo uma pesquisa recente, mostra que 30% dos meninos jovens dizem que as mulheres têm, sim, que ser submissas a eles. Se um jovem está dizendo isso, o que será no futuro? Ser submissa significa não ter vontade própria, não ter liberdade”, afirmou a ministra.
Também participaram da mesa de abertura a deputada estadual Iriny Lopes (PT), a secretária de Estado das Mulheres, Jaqueline Moraes, e a vereadora de Vitória, Karla Coser (PT).
Durante sua fala, Jaqueline Moraes reforçou a urgência de desconstruir padrões de masculinidade que, segundo ela, seguem alimentando a violência contra as mulheres.
A secretária defendeu que os homens deixem de ser omissos diante de situações de agressão e passem a integrar de forma ativa a construção de uma cultura de paz, rompendo o chamado “pacto de silêncio”.
Mesa formada por homens debate responsabilidade masculina
Na sequência da programação, uma segunda roda de conversa reuniu apenas homens, com a proposta de reforçar que a violência contra a mulher também é responsabilidade deles.
Participaram do debate o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES), Domingos Taufner; o pesquisador em políticas de gênero e raça, João José Barbosa Sana; o vice-presidente da OAB de Vila Velha, José Eduardo Coelho Dias; e o padre Paulo Sergio. A mediação ficou por conta do deputado estadual João Coser (PT).
Durante sua participação, Taufner afirmou que os homens fazem parte do problema, mas também podem ser parte da solução. Ele avaliou que a discussão sobre masculinidade ainda é difícil e cercada de resistência, ao mesmo tempo em que alertou para o avanço da misoginia e o agravamento dos casos de violência.
O conselheiro também observou que episódios de feminicídio seguidos de suicídio, assim como casos de homens que enfrentam forças policiais ou invadem delegacias, demonstram que a punição, sozinha, não é suficiente para frear a violência masculina.
Já o advogado José Eduardo Coelho Dias lembrou que, até 1962, as mulheres brasileiras não podiam administrar seus próprios bens nem escolher livremente uma profissão sem autorização do marido. Esse cenário começou a mudar com a promulgação do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/1962), que retirou da mulher a condição de civilmente incapaz.
“Nós fomos formatados em uma sociedade cruelmente machista. Eu aprendi a ser machista desde muito novo. Todo mundo aqui aprendeu que o machismo era algo natural. Passou da hora de repensar isso. Aumentar pena não adianta. Pena de morte também não. Muitos desses homens não têm medo da morte, da polícia, não têm medo de nada”, refletiu.
Participação do público amplia debate
Após as exposições iniciais, o evento abriu espaço para a participação do público masculino presente. Os participantes compartilharam experiências pessoais e reflexões sobre suas trajetórias como filhos, maridos, pais e colegas de trabalho.
Em muitos relatos, os homens reconheceram comportamentos machistas reproduzidos ao longo da vida, ao mesmo tempo em que destacaram aprendizados construídos a partir da convivência com mulheres em diferentes fases da vida.
PRF manifesta solidariedade após feminicídio
Servidores da Polícia Rodoviária Federal (PRF) também participaram da atividade e manifestaram solidariedade à então comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada na última segunda-feira (23), supostamente pelo namorado, um policial rodoviário federal.
Fonte: Ales