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Arte, Crônicas e Poesia

As prisões que construí

Publicado em 19/02/2026 às 08:07

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A minha mente está em constante busca de prisões, mesmo em vigília, deparo com construções sendo elaboradas, ornamentadas de alegria e jubilo presente e futuro. A divagação sem rédea conduz a frustrações infindáveis.

Estava a ter ilações sobre viagens, prazeres mágicos e poder avassalador, me deleitei em imagens de sensações múltiplas. Na minha adolescência essas ilações foram sonhos e objetivos, durante longo tempo fiquei nessa corrida desenfreada. Acreditava piamente estar no caminho certo, meu foco era dinheiro, poder e prazeres diversos. Embevecia em alimentos e na aquisição de objetos. Ora! onde isso me levou…

Nunca gostei da metáfora no “fundo do poço”, excessivamente melodramática, entretanto é cabível, descreve bem o medo, escuridão e solidão. Tudo isso é colheita da esbórnia, ao término do dinheiro, ao ver a conta negativa, encontramos o medo, temor da sobrevivência, receio dos julgamentos alheios. Ao apagar das luzes neon, deparamos com tudo negro e o abandono de todos, seja bem-vinda solidão!

O despertar é demorado, ou melhor, despertamento, pois por minha natureza ficaria submerso nesse mundo, o Senhor quebrou cada osso do meu corpo. Realmente não tinha outra maneira, as coisas ruins são muitas vezes agradáveis aos sentidos. E diante das nossas verdades somos relutantes às mudanças.

Por tal razão Paulo nos adverte da vigília constante. Mesmo ciente dos erros existe um querer enraizado clamando no nosso eu para que continuemos errando, numa batalha perene na consciência entre o deve r(virtude) e o desejo (luxúria). Por mais que seja sabido que devemos ser equilibrados e disciplinados, me vejo constantemente ser exagerado e negligente. Ao recordar os períodos festivos, vem um conjunto de momentos de desregramento, bebidas e comidas em excesso.

Não obstante o maior erro é sempre a desatenção, durante risadas e abraços não percebemos a falsidade e a maldade. Vemos o sorriso fechar ao primeiro pedido de ajuda e os abraços tornarem se despedidas. Os prazeres entorpecem e infelizmente o seu remédio é a dor. A dor é uma faca que corta a pele e traz consigo a verdadeira percepção das coisas.

Ao passo que diariamente noto que superada a destruição e iniciado a reconstrução, persistentemente escuto uma voz com dizeres aliciantes. “Você merece, você pode, será maravilhoso”. Não é difícil sucumbir a elogios e votos de otimismo, até mesmo bandidos são otimistas quanto a seus feitos e crentes de estarem agindo de forma correta. Pondero que muitas coisas ruins começam de desejos bons e durante o percurso ocorra desvios.

Ao me observar vejo que tinha o desejo de ser uma pessoa melhor, ter conhecimento, não ser incauto, durante o intento desviei para o orgulho e vaidade de ser letrado e de considerar saber mais que os demais. Por óbvio, argumentava que tudo era justo devido ao meu esforço em relação aos demais, que a lógica me assistia em todos os aspectos. Até que certo dia, conheci uma senhorinha, que não tinha a escolaridade mínima, mas me ensinou uma grande lição: humildade.

Ela me fez um único questionamento: “o que lhe faz pensar ser diferente, se a todo mundo assiste o mesmo destino?”.

É na singeleza e aparente simplicidade que esconde os maiores diamantes, ao me atingir feito uma flecha essa indagação, comecei a direcionar os olhos para o lado certo e que por mais que ouvia elogios e sinais públicos de distinção, nada de realmente importante tinha destaque. Por óbvio, a vigília deve ser constante pois a vaidade e orgulho estão sempre à espreita.

A cada novo dia é o momento de sermos melhores, nem que seja um pouquinho, de modo que a todo instante somos tentados a sermos piores, uma força quase inexorável.

Portanto, ao cabo de tudo, fé!

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