Agir com razão ou com coração: qual devemos seguir?

Publicado em 14/12/2021 às 15:21

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Werner Roger
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Werner Roger

O ano se aproxima do fim, e chegamos à beira do começo de 2022 com volume igual, no mínimo, ou superior ao de dúvidas que ainda temos em 2021. Somos bombardeados, diariamente, com notícias de tensão política; novas amarras se desenhando com as próximas eleições; incertezas na economia; alta dos juros e do dólar; queda do Produto Interno Bruto (PIB); país em alerta diante do risco iminente da nova variante, a Ômicron, e muito mais que isso… Diante desse cenário que ofusca os horizontes a médio e longo prazos é preciso ter cartas na manga para alcançar uma visão prognóstica global para não desestabilizar os investimentos.

Cada movimentação no mercado gera algum tipo de impacto no mundo dos investimentos. Entender essa premissa é essencial para fazer as escolhas corretas no tempo adequado e assim driblar as intempéries do setor, evitando assim deixar ser levado apenas pelas ondas de palpites alheios. O futuro é imponderável, incerto e todos têm dúvidas sobre ele, mas a diferença de uns para outros pode ser ilustrada com uma passagem de Goethe que nos ajuda a entender melhor esse dilema. Depois de anos de afinco em pesquisas sobre fenomenologia, ele concluiu:  – estou cada vez mais confuso, só que em um plano superior.

Não sabemos com 100% de precisão sobre o impacto dos movimentos externos e internos no mercado de ações, no entanto, aquele investidor que norteia suas decisões em estudos, dados e análises com certeza tem uma visão mais completa e está num plano superior (mas sem pedestal), portanto, tende a colher resultados acima da média. Devemos sempre ter em mente que o conhecimento e o equilíbrio entre razão e emoção são os fatores decisivos para distinguir investimentos sólidos de aplicações rasas que se esmaecem como fumaça.

Investimentos seguem muito mais decisões de natureza comportamental do que racional. Levados por incontáveis fontes de informações a ver o ambiente econômico como favorável, somos levados a ficar valentes, a investir mais em instrumentos ou ativos que oferecem retornos maiores. Invertendo o polo, as más notícias ou ambiente desfavorável nos acovardam; é quando buscamos proteção e nos contentamos até com pequenas perdas em relação à inflação, a fim de evitar perdas maiores. Nem as decisões mais pessoais (ou talvez principalmente essas) que movimentem volumes consideráveis de dinheiro – como comprar um imóvel, um veículo, casar, ter filhos ou até trocar de emprego – ficam de fora. São reconsideradas, ou mesmo postergadas, em situações econômica e financeiramente adversas.

Se fosse pelo pensamento dos grandes investidores, qualquer risco valeria a pena ser corrido à revelia de qualquer contexto. Compre na baixa e venda na alta. Arrisque na incerteza, e bata em retirada ao rufar dos tambores da vitória. Mas na alta acreditamos que ganharemos ainda mais – levados por notícias positivas (desconsideradas de seu contexto, diga-se); na baixa, acreditamos que tudo ficará pior, pois é isso que ouvimos falar. Trata-se de puro lugar comum e faz aquele que segue esse modo de ver as coisas pensar que tem a fórmula exata para antever o momento em que o transatlântico fará a curva. Não há uma única linha de razão nisso. É pura adivinhação. Somos obviamente influenciados pelos pensamentos alheios; é o coração que predomina nas tomadas de decisões. Adivinhar parece resolver problemas imediatamente (quando as coisas dão errado, é claro que essa impressão muda). Isso, claro, é prevalente (mas não exclusividade) no curto prazo.

Para o investidor que poupa para o longo prazo, ou não tem compromisso financeiro próximo e que depende do recurso aplicado em renda variável, tenho duas perguntas:

1) Por que está vendendo?

Creio que 95% das respostas seriam variações dos temas: “Temo que o mercado irá cair, vou pôr o lucro no bolso”, ou “Irei voltar ao mercado quando as coisas estiverem melhor”.

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2) Por que está investindo mais?

Aqui também, parece o samba de uma nota só: “Porque agora vai”, “Senti firmeza”, “Já está subindo”, “Os juros estão caindo e vou perder a oportunidade do mercado em alta”, “Está todo mundo dizendo que o mercado vai subir” – ou, uma das melhores (com aquele twist de inglês que parece dar ares de verdade a tudo): “Agora entramos no bull market”.

Tais decisões são amparadas na crença de que agimos com a razão, depois de muito raciocínio e análise. Será? Não seremos simplesmente influenciados por terceiros? Ou seríamos mais espertos que o mercado? A meu ver a resposta é sim e não, respectivamente. A filosofia e o meu fraco por ela sempre ajudam a ilustrar e resolvi compartilhar o meu pensamento sobre tomada de decisões com o francês René Descartes (toda vez que alguém diz que algo precisa, ou não pode, ser determinado cartesianamente, é a ele que se refere) isto porque ele entendeu que há uma separação entre razão e coração/emoção. Ele também é conhecido pelo “plano cartesiano”, um instrumento matemático no qual amalgamou a álgebra e a geometria e fundou nada menos que um dos ramos fundamentais da matemática moderna – geometria analítica (toda vez que você olhar um gráfico, algo de Descartes está ali). Além de ter sido físico, numa época em que a física tal como a conhecemos estava nascendo. Ninguém hoje constrói pontes, ou foguetes ou tomógrafos com física cartesiana – mas entrar em contato com seus avanços é extremamente interessante.

Como se não bastasse, é um dos nomes mais importantes da filosofia universal. Foi educado (foi um dos primeiros alunos, na verdade) no Colégio de La Flèche (ou, por seu nome formal, o Collège Royal Henry-Le-Grand), uma instituição dos jesuítas. Formou-se em direito em 1616, aos 22 anos, mas jamais seguiu a profissão; sua capacidade intelectual seria voltada para a matemática. Aos 33, já tinha escrito “O Tratado do Mundo”, cujo tema era o heliocentrismo – a teoria, elaborada por Nicolau Copérnico, de que o centro do universo era o Sol, e não a Terra (proposta por Ptolomeu, cerca de 2 mil anos antes). Mas Descartes sabia do que passou Galileu Galilei, que defendia o mesmo sistema. A prudência prevaleceu e o livro não foi publicado.

Em 1637 e 1641, ele publicou o “Discurso do Método” e “Meditações Sobre a Filosofia Primeira”, duas obras fundamentais para o pensamento universal em qualquer tempo. Descartes transitou nas altas cortes, inclusive recebendo do Rei Luís XIII uma pensão. Na corte francesa, conheceu a rainha da Suécia, Cristina, que o convidou a ser seu conselheiro. Na Suécia, vítima do frio intenso, morreu em 1650, de pneumonia.

Descartes, como Platão, entendia que alma e corpo eram duas substâncias diferentes, mutuamente dependentes. Dessa ideia seminal, viria uma frase que seria repetida em inúmeras ocasiões: “Penso, logo existo”. A ideia dele era mostrar a independência da substância pensante da substância material, consistentemente com sua filosofia. O “penso, logo existo”, no entanto, é uma tradução ligeiramente diferente do original francês (“Je suis, j’existe”, algo como “Eu sou, eu existo” – que é mais próxima da formulação original, em latim: “Ego sum, ego existo”). Mas esta já é uma questão para os especialistas. O caso é que, dessa ideia central relacionando pensar, existir e a separação entre ambos, surgiu um livro essencial não só para a filosofia, mas para nossa formação mais ampla. Faz bem conhecer Descartes. A seguir, fiz uma seleção de frases do pensador francês que, tenho certeza, se aplicam a nossos investimentos e decisões a respeito:

  • Daria tudo que sei pela metade do que ignoro.
  • Não existem métodos fáceis para resolver problemas complexos.
  • Tudo que é complexo pode ser dividido em partes simples.
  • Não há nada no mundo que esteja mais bem repartido do que a razão: todos estão convencidos de que a tem de sobra.
  • Quase nunca me fio nos primeiros pensamentos que me vêm à mente.
  • Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel.
  • Para saber o que as pessoas realmente pensam, preste atenção no que elas fazem, em vez de no que elas dizem.
  • Deve-se ter em mente que muitas crenças são baseadas em preconceitos e tradições.
  • Nossas crenças são baseadas em nossos hábitos, mais do que em qualquer outro conhecimento.
  • Eu cometi todos os erros que poderiam ser cometidos, e, no entanto, nunca parei de tentar.
  • Ninguém pode conceber tão bem uma coisa e fazê-la sua, quando a aprende de um outro, em vez de a inventar ele próprio.

Tendo em mente agora as frases deste grande pensador, que nos acompanhou neste artigo, você tem em mãos alguns recursos que certamente o levarão a refletir mais e evitar decisões precipitadas e, mais que isso, baseadas apenas em opiniões alheias. Errar faz parte, no entanto, é melhor errar tendo efetivamente pensado antes de decidir do que tendo deixado outros pensarem por nós.

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