Seminário reúne profissionais para discutir estratégias de inclusão de alunos autistas nas escolas
Publicado em 14/08/2026 às 08:21
Foto: Gabriel Bessa/ Feapaes-ES
Mais de 200 professores, pedagogos e gestores das Apaes do Espírito Santo participaram, em Vitória, do seminário “Práticas Pedagógicas no AEE: Avaliação, Intervenções e Estratégias Educacionais para o TEA”. Promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo (Feapaes-ES), o encontro discutiu estratégias para ampliar a inclusão e melhorar o atendimento educacional de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
De acordo com o Censo 2022, 2,4 milhões de pessoas têm diagnóstico de TEA no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Diante desse cenário, especialistas destacaram que garantir a matrícula de um estudante autista não é suficiente para assegurar sua inclusão. A participação e a aprendizagem dependem também de profissionais preparados, avaliação individualizada e estratégias adequadas às necessidades de cada aluno.
Um dos palestrantes foi o pesquisador Lucelmo Lacerda de Brito, referência brasileira em Educação Especial para pessoas com autismo. Ele defendeu que a discussão sobre inclusão precisa estar relacionada aos desafios enfrentados diariamente nas salas de aula.
“Não existe inclusão escolar verdadeira sem que o professor tenha conhecimento especializado para compreender as necessidades do estudante e adotar estratégias adequadas de ensino”, afirmou.
Durante a palestra, Lucelmo abordou o papel do Atendimento Educacional Especializado (AEE) na orientação dos profissionais de apoio escolar e apresentou estratégias que podem ser incorporadas à rotina pedagógica. Entre elas estão o uso de recursos visuais para antecipar atividades, oferta de escolhas, reforço positivo, utilização dos interesses do estudante e avaliação da função de comportamentos desafiadores.
Segundo o pesquisador, o AEE deve atuar de forma complementar à escolarização, identificando barreiras e desenvolvendo recursos que favoreçam a autonomia, a participação e a aprendizagem.
Comportamento também pode ser uma forma de comunicação
A relação entre comunicação, linguagem e comportamento também esteve entre os temas do seminário. A psicóloga Camila Nasser Mancini, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), destacou a importância de compreender o que está por trás de determinados comportamentos antes de classificá-los como agressividade, desobediência ou recusa.
“Todo comportamento comunica alguma coisa. Quando uma criança é agressiva, por exemplo, pode ser porque ainda não desenvolveu repertório de vocabulário, comunicação verbal ou gestual para explicar o que está sentindo”, explicou.
O psiquiatra Gabriel Silva Pereira Bessa Couto abordou o manejo comportamental e a autorregulação emocional no ambiente escolar. Entre as estratégias apresentadas estão a antecipação de mudanças, organização de rotinas previsíveis, instruções objetivas, redução de estímulos e reforço de pequenos avanços.
O especialista também explicou que, durante uma crise, a criança pode perder temporariamente a capacidade de organizar pensamentos, controlar impulsos e estabelecer uma conversa racional. Nesses momentos, a orientação é priorizar a segurança, reduzir estímulos e retomar o diálogo após o restabelecimento do equilíbrio emocional.
Gabriel ressaltou ainda a importância da parceria entre família e escola para favorecer o desenvolvimento do estudante.
Autonomia também faz parte da aprendizagem
O desenvolvimento de habilidades sociais e da autonomia foi abordado pelo doutor em Educação Especial e coordenador da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), Luiz Fernando Zuin.
Segundo o especialista, habilidades como comunicar necessidades, fazer escolhas, pedir ajuda, lidar com conflitos e expressar sentimentos precisam fazer parte do planejamento pedagógico.
Para isso, é necessário avaliar as competências de cada estudante e identificar quais habilidades precisam ser desenvolvidas, considerando também as oportunidades e o suporte oferecidos no ambiente escolar.
Zuin destacou que o trabalho de inclusão deve preparar o estudante para além da escola, contribuindo para sua participação social e futura inserção no mundo do trabalho.
“Todo mundo sonha. E nós precisamos sonhar com esse estudante, capaz de assumir papéis cada vez mais importantes na própria vida”, afirmou.
Para o diretor social da Feapaes-ES, Vanderson Gaburo, o seminário reforça o compromisso da rede com a formação continuada dos profissionais.
“Acreditamos que a educação transforma vidas e amplia oportunidades. E como fazemos transformação social todos os dias nas Apaes? Qualificando cada vez mais os nossos profissionais e aperfeiçoando nossas estratégias de atuação”, destacou.
O encontro reforçou a importância da capacitação de professores e equipes escolares para que a inclusão de estudantes com autismo vá além do acesso à escola, garantindo condições para aprendizagem, participação, desenvolvimento da autonomia e convivência social.
Fonte: P6 Comunicação