Ricardo Ferraço não descarta nenhuma possibilidade para as eleições deste ano

Em sua segunda entrevista ao portal Montanhas Capixabas e ao jornal O Noticiário neste mandato, que se encerra no final deste ano, o senador Ricardo Ferraço (PSDB) falou sobre os desafios que o Estado e o Brasil precisam enfrentar e também falou sobre suas pretensões políticas.

Ferraço afirmou que tem bom relacionamento com o atual governador Paulo Hartung e com o ex-governador Renato Casagrande, e disse, ainda, que está à disposição para disputar uma vaga nacional ou estadual nas eleições deste ano. “Eu não descarto nenhuma possibilidade”, afirmou.

O senador também falou sobre as reformas que, na opinião dele, o Brasil precisa fazer, além de ter destacado a importância do Senado e das emendas parlamentares para o desenvolvimento do Espírito Santo.

Montanhas Capixabas - Por insatisfação à não punição do senador Aécio Neves, que é do seu partido, o senhor se afastou do Senado. Por que tomou essa atitude?

Ricardo Ferraço - Eu fiquei profundamente indignado com as circunstâncias e a conjuntura vivida, em razão da anistia que o Senado deu ao senador Aécio Neves. Na prática, precisamos cortar na própria carne, quando for necessário, para fazermos diferente do que aquilo que falávamos.

Mobilizados pela sociedade, fizemos o impeachment da presidente Dilma Rousseff pelos crimes cometidos, e o episódio envolvendo o senador Aécio Neves foi gravíssimo. O Senado deveria ter feito o que não fez, e o partido também deveria ter feito seu papel.

Como foram esses meses, desde novembro, em que o senhor se afastou do Senado?

Eu aproveitei esse período, entre 8 de novembro e 15 de dezembro, e em seguida emendou com o recesso, para circular no Espírito Santo, de maneira mais calma, e estar mais próximo da população, ouvindo as demandas e trazendo sugestões que podem nos ajudar a aperfeiçoar o mandato.

O que eu pude perceber é que, na prática, a política brasileira precisa ser reinventada nos seus modos, em suas atitudes, na maneira de representar a população. Causou uma enorme indignação na população o fato de que o atual governo tenha cometido os mesmos erros de condução, de atitude e de ética do anterior.

Na opinião do senhor, quais as principais reformas que o Brasil precisa implementar?

Para o Espírito Santo ir bem, é preciso que o Brasil possa ir bem. Veja que essa crise vivida recentemente no Espírito Santo é uma crise originária da crise nacional. É muito difícil o país ir mal e o Estado estar bem. E é preciso haver um reposicionamento do Estado Brasileiro. O setor público está custando muito caro ao contribuinte.

O governo não gera riquezas. Quem gera riquezas é o contribuinte, que são os empreendedores e os trabalhadores. O estado brasileiro precisa ser mais eficiente. O Brasil não pode continuar pagando aproximadamente R$ 500 bilhões de juros ao ano.

Esse valor representa cinco vezes o capital do Banco do Brasil. Ou então, o valor de 20 anos, em apenas um, do que se paga ao Bolsa Família. O Brasil precisa se organizar, e para isso, precisa fazer algumas reformas.

As polêmicas e necessárias reformas trabalhista e da Previdência precisam ser implementadas. Evidentemente, estou falando de reformas que vão corrigir injustiças e que vão corrigir privilégios. Não é possível manter um sistema previdenciário onde 2% dos beneficiários custam à população brasileira quase 30% de toda a previdência. Há distorções muito profundas.

O Espírito Santo tem uma representação muito pequena quando analisamos o eleitorado brasileiro. O Estado está em 9º lugar entre os que mais arrecadam e em apenas na 17ª colocação dos que recebem repasses do governo federal*. É preciso uma reforma no pacto federativo?

Claro que sim. Nossa federação é cheia de deformações, e é uma ficção. Estamos melhorando isso. Estamos conseguindo resolver problemas que historicamente estavam sem solução. Eu me refiro à duplicação da BR-262, que já é uma realidade. Fomos contra a privatização, pois isso iria onerar fortemente quem mora na região. Agora vamos brigar para manter os investimentos para essa duplicação.

Temos também o aeroporto de Vitória, que está na reta final. As obras do porto também contribuíram com o desenvolvimento do Estado. Agora, estamos trabalhando a Ferrovia Sul-Litorânea, que vai ligar a Grande Vitória com Presidente Kennedy. Estamos trabalhando em defesa do Espírito Santo, para que consigamos trazer recursos para cá.

Na visão do senhor, qual a importância da barragem que será construída no Rio Jucu para armazenamento de água?

Para viabilizar essa obra, que é muito importante para o abastecimento humano e para o futuro do Espírito Santo, disponibilizamos, por meio de emendas da bancada capixaba, R$ 59,5 milhões em 2017. Quando o governo estadual terminar o processo e contratar a empresa, já terá esse recurso disponível. Essa obra é extremamente importante para todo o Estado.

Além desse recurso, quais outros que a bancada federal capixaba destinou ao Estado?

Em 2017 viabilizamos mais de R$ 270 milhões para o Estado por meio da bancada. Além disso, os senadores e deputados federais do Estado têm, cada um, mais cerca de R$ 15 milhões em emendas. Ou seja, são outros quase R$ 200 milhões por ano de emendas diversas para o Estado, que são bem pulverizadas aos municípios. Juntos, estamos trazendo, para 2018, quase R$ 500 milhões de emendas para o Estado. Isso é quase a metade do que o governo estadual está anunciando que vai investir neste ano.

Para 2018, quais serão as principais ações que o Brasil precisa implementar?

Uma delas é o combate intolerante à corrupção. O brasileiro não tolera mais esse nível de desvio e inconsequência no setor público. Essa é a prioridade. A segunda coisa é trabalhar para conseguirmos organizar as contas públicas do país. Não vemos, mundo afora, países que conseguem se desenvolver com suas contas desorganizadas.

Outra coisa que temos que nos atentar é a crise hídrica. Temos que fazer uma política focada ao nosso potencial hídrico. E temos que reduzir as desigualdades no campo da educação e da renda, além de políticas públicas voltadas à segurança pública.

Falando sobre educação, duas escolas da região têm comemorado, nos últimos anos, as primeiras colocações no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Entretanto, mais de 80 escolas particulares sempre estão à frente da primeira pública no Estado. O que o senhor pensa sobre isso?

Isso comprova uma enorme desigualdade na educação. E temos um problema central que o Brasil precisa despertar para ele. Precisamos gerar igualdade de oportunidade na educação, na pré-escola, na pré-infância. Todos os estudos indicam que, no período de zero a cinco anos, a criança tem 80% das conexões neurológicas.

Então, se você parte da pré-escola, com uma criança que tem toda a condição e outra que não tem, dificilmente a que não tiver a mesma condição vai alcançar a outra no futuro. Então, a desigualdade está na iniciativa. Quando essas crianças chegam ao ensino fundamental e médio, a que cresceu com maior condição na escola terá um desempenho melhor.

Falamos muito no Brasil sobre combater a desigualdade social e a concentração de renda, mas temos outra desigualdade que é a educacional. Então, se não resolvermos a desigualdade educacional, dificilmente vamos resolver as outras.

O que o senhor pensa sobre a campanha em 2018?

A política precisa ser reinventada, com novos hábitos e novas atitudes. O abismo que foi criado entre a população e o sistema político e os políticos é muito grande. Há um enorme desalento das pessoas com a política. O grande desafio para 2018 é dialogar muito com população para que todos possam não confundir o joio com o trigo.

Ainda que estejamos vivendo um período dramático, não há outra forma de operar essas mudanças a não ser pelo caminho da política. E eu me refiro da política com o “P” maiúsculo. Não a politicagem, mas a política que foca o bem-estar e a atenção às pessoas. Isso é fundamental para resgatar a confiança das pessoas. Alguns terão o que mostrar e apresentar. E seguramente eu estarei dialogando com esse nível de sinceridade com os capixabas.

E o senhor vai tentar a reeleição ou disputará outro cargo político?

Eu não descarto nada. Eu tenho dito que eu sou, no mínimo, candidato ao Senado. Temos pela frente uma agenda local e nacional muito desafiadora, e que vai exigir muito de todos nós. O Senado é o único espaço da federação brasileira em que nós, capixabas, temos a mesma representação que São Paulo, já que todos os estados brasileiros têm três representantes.

Precisamos tomar muito cuidado sobre quem vamos eleger como nossos representantes, pois não é produzindo aventuras que a gente vai proporcionar um ambiente de desenvolvimento para o Espírito Santo. Não vamos resolver nossos desafios na base do voluntariado ou da bravata. É preciso ter experiência e dimensão da responsabilidade do cargo.

Qual a importância do Senado para defender os interesses do Estado?

O Senado tem uma disputa política que exige muita experiência e muita maturidade para defender os interesses dos capixabas. Por exemplo: no último mês de outubro, tivemos um debate muito duro com São Paulo, pois eles queriam acabar com incentivos fiscais que geram muitos empregos no Espírito Santo.

Eu fui o relator dessa matéria, que permitiu que o Espírito Santo pudesse manter esses incentivos por mais 15 anos, nos segmentos atacadista, agrícola, industrial, e outros. Isso assegurou a manutenção de pelo menos 150 mil postos de trabalho.

Posso assegurar que se perdêssemos esses incentivos, em menos de dois anos o Estado perderia esses postos de trabalho, já que essas empresas beneficiadas estão instaladas no Espírito Santo principalmente devido a esses incentivos.

Em entrevista anterior, o senhor comentou que o governador Paulo Hartung deveria vir para a reeleição. Hoje o senhor pensa da mesma forma? Qual sua avaliação desse mandato do governador?

O Paulo Hartung revelou aos capixabas uma enorme responsabilidade na condução dos assuntos públicos em nosso Estado. Mas não sei qual posição que ele adotará. Na verdade, acho que nem ele sabe. Isso só vai ser decidido em março e abril. Até lá, vamos dialogar muito.

Dada a importância do Senado para o Espírito Santo, onde o senhor poderia servir melhor ao povo capixaba, no Senado ou como governador do Estado?

Eu sou eternamente grato aos capixabas, e cultivarei essa gratidão eternamente, porque em 2010 os capixabas me fizeram o político mais votado da história do Estado. Foram 1.571.000 votos. Eu trabalho todos os dias para honrar essa confiança dos capixabas. É muito difícil para eu falar onde eu seria mais ou menos importante. Eu quero continuar servindo aos capixabas.

E o senhor estaria disposto a disputar o cargo de governador?

Quando falo que sou no mínimo candidato ao Senado, eu não descarto nada. Até mesmo porque conheço todo o Estado e sei dos desafios de cada região, pelos cargos que já exerci como vice-governador, secretário de agricultura e agora como senador. Eu estarei à disposição da população para jogar na posição que for a melhor. Essa não é uma decisão que irei tomar sozinho. O que o eleitor tem como certo é que estarei disputando a eleição em 2018.

Ficou mágoa no senhor quando o governador Paulo Hartung não o apoiou quando o senhor era pré-candidato ao governo do Estado?

De forma alguma. Mas os capixabas lavaram minha alma de alegria e satisfação quando me elegeram ao Senado com a maior quantidade de votos de um político do Estado. Naquela ocasião, eu era o vice-governador e eu estava absolutamente preparado para conduzir o Estado, tanto no lado da gestão quanto do político.

O senhor tem um bom relacionamento tanto com Paulo Hartung quanto com Renato Casagrande?

Eu não tenho problemas de relacionamento com ninguém, graças a Deus. Na política, quem faz o debate são as ideias, não as pessoas. Tenho contato e uma relação boa com Paulo Hartung, tenho também com o ex-governador Renato Casagrande.

O senhor vai permanecer no PSDB?

Quando eu falo que não descarto nada, isso envolve tudo. Eu não gostaria de sair do partido, mas não sei ainda. O PSDB errou quando anistiou o senador Aécio Neves da culpa. Eu fui o único do partido contra essa decisão.